sexta-feira, agosto 14, 2009

Último dia de fazer-nada

Bem, o fazer nada não é exatamente fazer nada, porque era cuidar da casa, aprontar várias na cozinha, ler muito e escrever bastante. Mas amanhã começo a trabalhar. Muita gente, como o meu pai, deve se perguntar "Mas porque raios não começar na segunda?". Bem, bem-vindos ao velho mundo da hotelaria, onde o seu momento mais ocupado são as férias dos outros! No meu caso, não serão as férias, mas os negócios. Sim, porque o hotel onde vou trabalhar é quase um business hotel, guardadas as proporções. Então, o Chef Executivo saiu de férias ontem, e esse fim-de-semana eles tem 170 pessoas no hotel. Vão precisar da mãozinha extra aqui, por isso começar no sábado.

Por pura coincidência, sábado também faz exatamente 4 meses que cheguei. Antes de vir estava com a idéia que conseguir emprego seria IMPOSSÍVEL, pois é assim que muitas brasileiras que moram aqui na Noruega em sua maioria pregam no Orkut. Que isso sirva pra mostrar que não é verdade. É possível trabalhar com o visto de noivado (que já é o próprio arbeidstillatelse, ou permissão de trabalho, assim que é colado no seu passaporte) e é possível arrumar trabalho sem falar a língua, dependendo da sua área de trabalho. Lembro de uma cretina que vivia berrando que o visto de trabalho demorava um montão de tempo pra sair. Só se o dela levou, pois o visto de noivado contém tudo junto.

Me impressionou muito o sistema todo. Por exemplo, ontem pela manhã, antes de sair pra ir dar aula, eu já recebi por e-mail meu cronograma de trabalho até o fim de setembro. E também um e-mail onde a gerente avisava pro hotel todo que tinha gente nova no pedaço. Achei simpático. Aliás, ela - a gerente, minha chefe, é muito simpática. Daí depois da aula eu tinha que ir até lá, entregar uns papéis. Ela disse que se eu comprovasse experiência anterior, poderia melhorar o salário. Tenho meu diploma de Chef Internacional e a tradução dele mais o histórico do curso, e o contrato de cook da Royal Caribbean, afinal, entrei de gaiata no navio, não descascando batata, mas picando alface no porão!

Mas antes uma presepada minha. Meu aluno me deu carona pra cidade (engraçado como eles sempre tem que ir à cidade depois da minha aula... Mas economizo o busão!). Era meio-dia, e eu tinha que estar no hotel às 13. Então, era muito cedo pra fazer hora pelo centro. E não que haja cafés e lugares gostosos prase esperar. Não, um expresso custa 20 a 30 pilas! Então, resolvi ir pra casa, deixar cadernos, dar uma refrescada na cara, e voltar. Levei 18 minutos do centro até aqui. Entrei, larguei umas coisas, penteei as madeixas, lavei a cara, sabe como é, né... Bebi uma aguinha, e saí de novo dez minutos depois. Pensei, tenho meia-hora, dá pra ir devagar, na boa. E resolvi fazer um caminho diferente, e com a cabeça nas nuvens, pensando na vida, não é que a cretina aqui conseguiu se perder? Não que tenha me perdido sem saber onde estava, mas acabei me distraindo e indo pra direção oposta. Quando vi as bandeiras do estádio de futebol, acordei do transe... Cretina, o que você está fazendo aqui? É pra lá que tens que ir! E ao tentar retomar o curso, não achava uma rua reta que me levasse à principal. Acabei dando uma gigantesca volta no quarteirão, mas ainda assim retomei a posição e cheguei 5 minutos adiantada no hotel.

Bem, o hotel, outro capítulo. A cozinha é minúscula, mas bem equipadinha. No café da manhã servem um buffet aos hóspedes. Depois, no almoço, só pra quem é hospede e faz o pedido do quer com antecedência. Ou seja, não é como um restaurante de hotel, que é aberto normalmente e qualquer transeunte pode entrar e resolver almoçar. Então é uma barbada, pois você sabe antes quantos vão comer o quê... E depois, no almojantar, outro buffet. Ontem havia dois senhores almoçando. O Chef, em seu último dia antes das tão sonhadas férias, estava de bracinhos cruzados, com as sobremesas já montadas, esperando apenas pra servir. Ah, detalhe... Ele cozinhando e a gerente servindo!

Conheci as instalações, que estão longe de ser um luxo, e deixam evidente a falta de mão-de-obra (e olhos) treinados em hotelaria. Outro dia vi uma tia na televisão dizendo que não se ensina na faculdade como gerir um hotel... "Coméqueé, cara pálida? Como assim?". Na verdade ela falava de um B&B (Bed & Breakfast) que era dela. Uns 10 quartos, no máximo? Assim até eu. Mas é justamente a falta de formação que leva certos estabelecimentos à completa ruína, especialmente na parte financeira e nas práticas de higiene e sanitização. Mas enfim, meus olhos treinados e a lobotomia que sofri durante os anos no ramo ainda estão muito ativos. Eu vejo as coisas com outros olhos.

Por exemplo, meu último navio, o Freedom of the Seas, tinha 1800 cabines (passageiros), carregando 4200 passageiros e 1400 tripulantes. A higiene é questão muito séria nos Estados Unidos, e a Vigilância Sanitária deles (o United States Public Health, do qual o CDC é um braço) não perdoa. E se você considerar que num dia de embarcação, 4200 passageiros deixam o navio até 10:30 da manhã e às 11:15 mais ou menos os outros 4200 entram, imagina a operação militar precisa pra estar com tudo pronto, e IMPECÁVEL! Acredite-me, tripulante ODEIA embarkation day! Ainda há o risco de o USPH nessa manhã embarcar de surpresa pra fazer a inspeção trimestral deles. Acredite-me, você tem que estar pronto TODA embarcação. Se o navio for reprovado, ele não pode deixar o porto. Imagina 4200 pessoas esperando no pier, em termos de indenização... Já aconteceu com o Freedom, por causa de epidemia de GI, e é uma catástrofe.

Em meu último contrato, como Assistant Bar Manager, eu e meu chefe francês (o Emmanuel de alguns posts abaixo), mais o Head-Bartender que estivesse em turno da manhã, começávamos a inspecionar os 32 bares e bar pantries do Freedom às 5:45 da manhã. Com uma lanterna de fazer inveja a qualquer farol de neblina, era um tal de abrir geladeiras e freezes, olhar cada material, cada copo, cada ralo, cada cm com minúcia, cada container, ler cada etiqueta, e se tivesse alguma coisa errada, ligar pro supervisor que tinha inspecionado durante a noite, pra que ele visse o que tinha deixado escapar e tratasse de corrigir antes que o navio fosse liberado (em geral 9 da manhã). Imagina como meus olhinhos são exigentes!

Então, tô acostumada com um padrão muito restrito e rigoroso, e o que sai dele me parece estranho. Além do que, por ser uma marca americana (Choice International) eu estava imaginando algo mais rígido. Mas não parece. Não que o hotel seja porquinho, muito pelo contrário. Mas os padrões não são os mesmos. Por um lado, ainda bem, não há tanto stress com isso. Por outro, aquela vozinha da perfeição , ou o diabinho sentado no ombro, não se cala, e eu preciso aprender a afogá-lo ou fritá-lo em gordura quente!

Depois fui com Lars no xópicents comprar mais uma calça preta (não sou muito fã de compartilhar calça de uniforme não!) e sapatos pretos confortáveis. O uniforme é todo preto (bom que emagrece!) com um avental verde-limão - não fui eu quem escolheu...

6 comentários:

missbutcher disse...

gente, além de higiene eles têm que cuidar da estética! jesus... preto e verdelimão... Você não merece!

Bonne chance! E divirta-se, claro. Ah, e, depois de uma massagem com creme de arnica nas costas, senta a bunda no computador e conte-nos tudo.

Luciana disse...

Camila, que legal que você está entusiasmada com o trabalho. Não fazia ideia desses números que você disse, e realmente é um trabalhão, bem diferente dos 10 quartos de um "hotel".
E bom você postar que encontrou trabalho e com seu visto de noiva, assim o povo deixa de teimar no que não os pertence.
Beijo e sucesso no novo trabalho.

Beth/Lilás disse...

Hei, Camila!
Parabéns menina! Que beleza, um emprego é tudo de bom para levantar a auto-estima e nos dias de hoje, com crise e tudo é um verdadeiro acontecimento. Parabéns mesmo!

Gostei do que vc falou em seu trabalho nos grandes navios, pois você náo acreditará, só vendo neste post aqui (http://supremamaegaia.blogspot.com/2009/03/singrando-os-mares-parte-1.html)

e em mais 3 subsequentes que fiz este ano e que pude comprovar o que vc falou. Realmente fantástico o trabalho do pessoal da tripulação desses mega navios.

Eu, fiquei boquiaberta com tdo o que vi e senti naqueles 9 dias e já penso em fazer um outro cruzeiro pro ano.

No mais, dou-lhe um conselho de mãezona, ou seja, náo se deixe levar pela impulsividade, vá com calma, observe e veja como é o ritmo desse novo trabalho, não vale a pena ir de cara falando o que pensa ou sabe. E eu imagino o quanto você sabe mesmo, pois trabalhar num ritmo daqueles dos grandes transatlânticos tem que ter muita competência.

E, sabe do que mais: adorei a cor desse uniforme! Assim que der, tire uma foto bem bonita com ele e poste pra gente ver.

beijos cariocas e sucesso!

Raquel disse...

Adorei seu comentário sobre as cretinices que escrevem no Orkut, obrigada por exprimir também minha opinião sobre Orkut e cia. ltda. haha. Que interessante ler sobre o mundo dos restaurantes e hotéis, mal posso esperar para ler sobre seu primeiro dia de trabalho.

Camila Hareide disse...

Dona Bel
Até que a combinação do uniforme não é das piores. A higiene, eu vou ajeitando aos poucos, né...

Lu, obrigada de novo, e obrigada pelo post no seu blog, uma fofa que você é! O hotel daqui é muito pequeno pro que eu estou acostumada - lotação máxima são 180 pessoas. Então, nada me assuta! Quanto à mulherada do Orkut, outro dia deixei um comentário no blog de uma menina, a bisca apagou! Depois te conto por e-mail...

Beth, vou lá ler seu post sobre barquinhos e te deixo um comentário lá mesmo. É uma boa maneira de viajar... Quanto ao seu conselho, é uma boa mesmo, tenho aprendido a ficar com a boca calada até que me perguntem...

Raquel, pois é! Tem umas doidonas lá que não sabem do que falam e se acham donas da verdade. Pois é, o primeiro dia de trabalho... Tô com preguiça de escrever sobre ele!

beijos a todas, meninas!

Claudia disse...

Camila,

Planeta Noruega é pura esquisitice...

Eu não tenho a menor idéia do que se fala por aí, mas depois de muitos anos vivendo aqui (entre Oslo e Trondheim) o que eu tenho a dizer é que eu não conheço estrangeiros, mesmo com educação superior, sem domínio da língua com emprego e conheço muitos estrangeiros que dominam a língua que também continuam sem emprego algum. O que vejo é que só tem emprego para os engenheiros.

Na verdade conheço vários noruegueses sem emprego aqui em Trondheim, maridos e mulheres de amigos e amigas do Per estão desempregados em péssima situação.


Você conseguiu uma oportunidade muito rara para os estrangeiros que eu conheço aqui, e eu não falo de brasileiros que chegaram ontem não, pois meu círculo de amigos não é de brasileiros. Falo de americanos, franceses, japoneses, israelenses, irlandeses e noruegueses, um povo grande que eu fui conhecendo ao longo dos anos e que se mandou da Noruega por não conseguir emprego na sua área.

Os brasileiros que eu conheço que estão bem empregados vieram empregados do Brasil, são engenheiros de petróleo que chegam aqui aos montes.

Em Oslo, pode ser, rola alguma coisa. Mas aqui não há emprego para ninguém. Você acha que eu faço doutorado sem financiamento por que eu quero? Meu dinheiro vem do Brasil, que me paga por pesquisas e artigos freelancer já que eu não quero voltar para Oslo e estou sem nenhum apoio para a pesquisa... Quem vai acabar me financiando é o CNPq.

Beijos e boa sorte,

Claudia