Quem abandonou família, amigos, carreira e a vida como sempre conheceu por uma outra vida num país distante, diferente, frio, sabe o quanto pode ser difícil às vezes. Independente do motivo que levou a pessoa a tomar tal decisão. Eu acompanho (às vezes mais de perto, às vezes nem tanto) as batalhas diárias de outras brasileiras na mesma situação... Em alguns momentos fica muito complicado mesmo.
Me lembro de quando cheguei aqui, há não muito tempo atrás. Na primavera, pra adiar um pouco meu encontro com a escuridão e os dias gelados. Me lembro do verão passado sentada aqui nesse mesmo sofá, escrevendo nesse mesmo computador, pensando ou tentando imaginar o que seria da minha vida nesse país com um idioma esquisito, onde as condições pros imigrantes não chegam a ser promissoras, num tempo em que eu tinha medo de sair de casa sozinha pra não pagar mico e dependia do meu marido pra tudo 0 inclusive dinheiro...
Me lembro de um post que escrevi quando consegui meu emprego - depois de cinco meses aqui e sem falar quase nada de norueguês. O post refletia bem o que se passava na minha cabeça, rendeu comentários geniais, e tudo isso me faz sorrir com gosto hoje. Inclusive pela minha lucidez naquele momento. Sim, houve dias em que quis mandar tudo aquilo pro inferno. Cheguei a procurar emprego entre novembro e dezembro do ano passado. Porque o diabinho ainda susurrava no meu ouvidinho que aquilo era aquém de mim, que eu afinal de contas não tinha estudado tanto e me matado de tabalhar pra fazer tudo aquilo que eu fazia. Até que o primeiro alerta chegou, em letras vermelhas maiúsculas... No dia da primeira entrevista pra um possível novo emprego, meu pai faleceu... Nem pensei no tal emprego novo mais, não era pra ser.
Então aconteceu aí um primeiro evento que me fez reconsiderar tudo aquilo que vinha me incomodando... Eu fui pro Brasil enterrar meu pai, pedi mais tempo pra ficar por lá com minha mãe e minha chefe me deu mais uma semana. Ela mesma cobriu todos os meus turnos., e ainda me pagou uns 4 dias como se eu estivesse estado doente.. Naquele momento tive certeza mais que absoluta de que aquela era uma empresa (ou ao menos minha chefe era) que se importava com seu material humano. Coisa rara em corporações, posso dizer isso com a boca cheia após muitos anos com a Royal Caribbean International, onde tripulantes são substituidos num o estalar de dedos...
Na volta do Brasil, passei a encarar a situação de forma diferente... O que me fazia ser tão superior àquele trabalho semi-braçal, se todos os noruegueses que trabalhavam ali também o faziam? Afirmar que o trabalho era aquém de mim era afirmar que aqueles noruegueses estavam aquém de mim, ora bolas! Que direito eu tinha de pensar assim? Nenhum, afinal, EU FIZ MINHAS ESCOLHAS! Diploma, não precisei esquecer, afinal ele me ajudou aarrumar o emprego. Mas a experiência em cargos de chefia e gerência não serviu de nada, voltei ao começo mais uma vez...
E passaram semanas, meses, passou-se praticamente um ano desde que pensei em começar a procurar outro emprego. A idéia começou a bater na porta de novo recentemente, mas pelos probleminhas de coluna que eu tive (estou tendo). Entretanto, nesse correr de ano, passei a encarar o emprego como um bom emprego, com um benefício imperdível (diárias de hotel com descontão em qualquer hotel da rede em toda a Escandinávia), com uma atmosfera extremamente saudável, onde todos se ajudam, os hóspedes são satisfeitésimos, e passei a me achar realmente sortuda por tê-lo conseguido.
No verão, fui escolhida pra ficar no lugar de minha chefe enquanto ela tirava férias. Novo desafio, eu preciso disso pra trabalhar legal, eu me entedio facilmente, especialmente fazendo um trabalho mecânico. E durante e após o verão passei a ouvir de minha chefe o quanto ela era feliz por ter a mim como funcionária, pois eu fazia a vida dela bem mais tranquila. Um belo elogio, né?
O motivo de tanta lenga-lenga? Acabei de voltar do hotel, onde fomos chamados pra uma reunião informal. É que toda sexta-feira tem café com bolo entre os funcionários, e uma rifa de uma garrafa de vinho pro fim de semana, tudo patrocinado pelo comitê social. Eu raramente estou trabalhando sextas de manhã, e essa era a última sessão do ano, disse minha chefe (eu estou de folga esse fim de semana). Na verdade, eles anunciariam o funcionário do ano...
E era eu! Por todo o esforço, com o cuidado com detalhes (passar o aspirador em cada frestinha, rsrsrs), por tomar a responsabilidade pra mim em todas as situações, por trazer novas idéias e inspirar o time com minha experiência... Bom, me pegou de surpresa e eu não esperava... Ganhei um lindo arranjo de flores, uma garrafa de vinho, um vale-presente e o melhor, em Janeiro, uma viagem pra Estocolmo com tudo pago, pra convenção Choice Scandinavia de inverno, um fim de semana em Estocolmo antes da conveção e tudo o mais... Além de tudo, passo a concorrer pela posição de funcionário do ano de toda a Choice Scandinavia, e um prêmio de 6 dígitos... Impossível de conseguir, mas uma honra disputar...
Enfim, minha mensagem final é pra que outros imigrantes não desistam nunca. É difícil mas não impossível. Mesmo sem falar o idioma. Hoje eu vejo futuro dentro da empresa pra qual eu tenho orgulho de trabalhar, que emprega outros imigrantes (no meu hotel são outros cinco), que abre as portas pra refugiados em programas de prática profissional. E que lembrem-se sempre que não existe trabalho nenhum que seja indigno. E que não importa se você é engenheiro, farmacêutico, caminhoneiro ou cozinheiro. Ao menos aqui na Noruega não importa mesmo.
Abaixo uma cópia exata do texto que foi lido antes da bomba, rsrsrs. Só pra quem entende norueguês...
"Camila er kåret til årets ansatt på bakgrunn av det hun gjør for alle andre hver dag.
Stiller til envher tid opp for alle sine kolleger, det er på egen avdeling på tvers av avdelingene. Alle vet at når de kommer på vakt etter henne så er det alltid gjort "det lille ekstra" som gjør av starten på en ny arbeidsdag alltid blir med et smil. Når man er på vakt sammen med henne så vet man at det alltid vil være en dag med ny lærdom fylt med mye latter og glede.
Camila tar ansvar utover det som er forventet av henne og i perioder med høyt sykefravær på avdelingen har hun stilt veldig mye opp på tross av at hun har 100% stilling i utgangspunktet. En periode hun selv burde vært sykmeldt stilte hun opp på jobb og gjorde jobben sin til det fulle fordi det ikke var mulig å finne erstatter for henne.
Camila er avdelingsleders høyre hånd og uten å bli bedt om det tar hun automatisk ansvaret når avdelingsleder ikke er tilstede.
Med sin lange fartstid internasjonalt har hun tatt med seg masse ny inspirasjon til vårt kjøkken og tar ofte initiativ til endringer i menyen vår og setter gjerne sin egen lille vri på våre klassiske retter. Hun følger alltid med på oppfølgingslista og har alt klart dersom det er gjester med særskilte behov og gjør gjerne litt ekstra for dem."
Not bad, ikke sånt?
No momento, planos pra escola estão sendo protelados mais uma vez. Meu norueguês evoluiu muito no decorrer do ano, e a escola não vai me acrescentar NADA em termos de conhecimento. As horas que o governo pede, no fundo também não fazem a menor diferença, pois entre ter que ir na UDI de ano em ano renovar o visto e pagar mil ou ir a cada dois e pagar dois mil, que diferença tem mesmo? Ter um emprego em tempo integral e salário integral no momento é mais importante...
Os planos de trabalhar na loja de vinhos ainda vagam por minha cabeça, mas mais pra frente.
E o diabinho maldito, esse dessa vez foi afogado por um bom tempo!
Me lembro de quando cheguei aqui, há não muito tempo atrás. Na primavera, pra adiar um pouco meu encontro com a escuridão e os dias gelados. Me lembro do verão passado sentada aqui nesse mesmo sofá, escrevendo nesse mesmo computador, pensando ou tentando imaginar o que seria da minha vida nesse país com um idioma esquisito, onde as condições pros imigrantes não chegam a ser promissoras, num tempo em que eu tinha medo de sair de casa sozinha pra não pagar mico e dependia do meu marido pra tudo 0 inclusive dinheiro...
Me lembro de um post que escrevi quando consegui meu emprego - depois de cinco meses aqui e sem falar quase nada de norueguês. O post refletia bem o que se passava na minha cabeça, rendeu comentários geniais, e tudo isso me faz sorrir com gosto hoje. Inclusive pela minha lucidez naquele momento. Sim, houve dias em que quis mandar tudo aquilo pro inferno. Cheguei a procurar emprego entre novembro e dezembro do ano passado. Porque o diabinho ainda susurrava no meu ouvidinho que aquilo era aquém de mim, que eu afinal de contas não tinha estudado tanto e me matado de tabalhar pra fazer tudo aquilo que eu fazia. Até que o primeiro alerta chegou, em letras vermelhas maiúsculas... No dia da primeira entrevista pra um possível novo emprego, meu pai faleceu... Nem pensei no tal emprego novo mais, não era pra ser.
Então aconteceu aí um primeiro evento que me fez reconsiderar tudo aquilo que vinha me incomodando... Eu fui pro Brasil enterrar meu pai, pedi mais tempo pra ficar por lá com minha mãe e minha chefe me deu mais uma semana. Ela mesma cobriu todos os meus turnos., e ainda me pagou uns 4 dias como se eu estivesse estado doente.. Naquele momento tive certeza mais que absoluta de que aquela era uma empresa (ou ao menos minha chefe era) que se importava com seu material humano. Coisa rara em corporações, posso dizer isso com a boca cheia após muitos anos com a Royal Caribbean International, onde tripulantes são substituidos num o estalar de dedos...
Na volta do Brasil, passei a encarar a situação de forma diferente... O que me fazia ser tão superior àquele trabalho semi-braçal, se todos os noruegueses que trabalhavam ali também o faziam? Afirmar que o trabalho era aquém de mim era afirmar que aqueles noruegueses estavam aquém de mim, ora bolas! Que direito eu tinha de pensar assim? Nenhum, afinal, EU FIZ MINHAS ESCOLHAS! Diploma, não precisei esquecer, afinal ele me ajudou aarrumar o emprego. Mas a experiência em cargos de chefia e gerência não serviu de nada, voltei ao começo mais uma vez...
E passaram semanas, meses, passou-se praticamente um ano desde que pensei em começar a procurar outro emprego. A idéia começou a bater na porta de novo recentemente, mas pelos probleminhas de coluna que eu tive (estou tendo). Entretanto, nesse correr de ano, passei a encarar o emprego como um bom emprego, com um benefício imperdível (diárias de hotel com descontão em qualquer hotel da rede em toda a Escandinávia), com uma atmosfera extremamente saudável, onde todos se ajudam, os hóspedes são satisfeitésimos, e passei a me achar realmente sortuda por tê-lo conseguido.
No verão, fui escolhida pra ficar no lugar de minha chefe enquanto ela tirava férias. Novo desafio, eu preciso disso pra trabalhar legal, eu me entedio facilmente, especialmente fazendo um trabalho mecânico. E durante e após o verão passei a ouvir de minha chefe o quanto ela era feliz por ter a mim como funcionária, pois eu fazia a vida dela bem mais tranquila. Um belo elogio, né?
O motivo de tanta lenga-lenga? Acabei de voltar do hotel, onde fomos chamados pra uma reunião informal. É que toda sexta-feira tem café com bolo entre os funcionários, e uma rifa de uma garrafa de vinho pro fim de semana, tudo patrocinado pelo comitê social. Eu raramente estou trabalhando sextas de manhã, e essa era a última sessão do ano, disse minha chefe (eu estou de folga esse fim de semana). Na verdade, eles anunciariam o funcionário do ano...
E era eu! Por todo o esforço, com o cuidado com detalhes (passar o aspirador em cada frestinha, rsrsrs), por tomar a responsabilidade pra mim em todas as situações, por trazer novas idéias e inspirar o time com minha experiência... Bom, me pegou de surpresa e eu não esperava... Ganhei um lindo arranjo de flores, uma garrafa de vinho, um vale-presente e o melhor, em Janeiro, uma viagem pra Estocolmo com tudo pago, pra convenção Choice Scandinavia de inverno, um fim de semana em Estocolmo antes da conveção e tudo o mais... Além de tudo, passo a concorrer pela posição de funcionário do ano de toda a Choice Scandinavia, e um prêmio de 6 dígitos... Impossível de conseguir, mas uma honra disputar...
Enfim, minha mensagem final é pra que outros imigrantes não desistam nunca. É difícil mas não impossível. Mesmo sem falar o idioma. Hoje eu vejo futuro dentro da empresa pra qual eu tenho orgulho de trabalhar, que emprega outros imigrantes (no meu hotel são outros cinco), que abre as portas pra refugiados em programas de prática profissional. E que lembrem-se sempre que não existe trabalho nenhum que seja indigno. E que não importa se você é engenheiro, farmacêutico, caminhoneiro ou cozinheiro. Ao menos aqui na Noruega não importa mesmo.
Abaixo uma cópia exata do texto que foi lido antes da bomba, rsrsrs. Só pra quem entende norueguês...
"Camila er kåret til årets ansatt på bakgrunn av det hun gjør for alle andre hver dag.
Stiller til envher tid opp for alle sine kolleger, det er på egen avdeling på tvers av avdelingene. Alle vet at når de kommer på vakt etter henne så er det alltid gjort "det lille ekstra" som gjør av starten på en ny arbeidsdag alltid blir med et smil. Når man er på vakt sammen med henne så vet man at det alltid vil være en dag med ny lærdom fylt med mye latter og glede.
Camila tar ansvar utover det som er forventet av henne og i perioder med høyt sykefravær på avdelingen har hun stilt veldig mye opp på tross av at hun har 100% stilling i utgangspunktet. En periode hun selv burde vært sykmeldt stilte hun opp på jobb og gjorde jobben sin til det fulle fordi det ikke var mulig å finne erstatter for henne.
Camila er avdelingsleders høyre hånd og uten å bli bedt om det tar hun automatisk ansvaret når avdelingsleder ikke er tilstede.
Med sin lange fartstid internasjonalt har hun tatt med seg masse ny inspirasjon til vårt kjøkken og tar ofte initiativ til endringer i menyen vår og setter gjerne sin egen lille vri på våre klassiske retter. Hun følger alltid med på oppfølgingslista og har alt klart dersom det er gjester med særskilte behov og gjør gjerne litt ekstra for dem."
Not bad, ikke sånt?
No momento, planos pra escola estão sendo protelados mais uma vez. Meu norueguês evoluiu muito no decorrer do ano, e a escola não vai me acrescentar NADA em termos de conhecimento. As horas que o governo pede, no fundo também não fazem a menor diferença, pois entre ter que ir na UDI de ano em ano renovar o visto e pagar mil ou ir a cada dois e pagar dois mil, que diferença tem mesmo? Ter um emprego em tempo integral e salário integral no momento é mais importante...
Os planos de trabalhar na loja de vinhos ainda vagam por minha cabeça, mas mais pra frente.
E o diabinho maldito, esse dessa vez foi afogado por um bom tempo!














