quinta-feira, dezembro 23, 1999

Notícias de Natal

Ótimas notícias, por sinal... Neste momento estou estreando o Crew Internet Café do navio. Sim, agora teremos internet no oceano!!! E durante os feriados de Natal e Ano Novo, será grátis!

Tenho tantas coisas prá contar que nem sei por onde começar. Então vou fazer um mosaico, de acordo com o que for lembrando...

TALES FROM THE SHIP - Algumas historietas desta vida estúpida no mar.
1)Há alguns cruzeiros atrás, um passageiro passou mal, e teve que ser desembarcado, pois precisava de cuidados mais especiais que o navio não tem como oferecer - tipo cirurgia cardíaca,etc. Estávamos em pleno mar do Caribe, mas nossa rota é ao redor de Cuba. Então o Capitão pediu ajuda a Guarda Costeira cubana e eles vieram buscar o passageiro e a família. O navio se aproximou um pouco mais da costa, e o barquinho cubano aportou no Splendour, e a família e o doente foram levados pra Cuba. Só vi as luzesde Cuba ao longe. Um dia eu vou lá....
2)Há algumas noites atrás, um navio cargueiro afundou aqui no mar do Caribe. Lembro de o mar ter estado muito bravo, até tionha me sentido meio esquisita, enjoadinha. De manhã o Capitão Tor começou a fazer anúncios de que estaríamos regressando a Aruba - tínhamos acabado de sair de lá - pois havia um pedido de busca e todas as grandes embarcações nas proximidades, para achar a tripulação daquele cargueiro. O Splendour foi o que acabou resgatando dez tripulantes que estavam num bote salva-vidas. O capitão havia desaparecido (dizem que eles sempre acabam indo com o navio, não é? Achei tão triste!). E lá estavam os dezsobreviventes no refeitório, sentados no chão, com carade truma, arrasados... Imagina, que trauma! No dia seguinte houve um treinamento de emergência extra e o Safety Officer fez um escândalo dizendo que o capitão faleceu pois estavasem o seu colete salva-vidas...
3) Ontem um tripulante morreu em sua cabine. Morreu do coração, dormindo. Não apareceu prá trabalhar, começaram a ligar na cabine, ele não atendia o telefone. Fizeram anúncios nos alto-falantes, o cara não aparecia... Então entraram na cabine dele e o encontraram. O corpo foi desembarcado em Aruba mesmo.

Agora chega de morbidez, é Natal. Vou estar em Grand Cayman na véspera e na Jamaica dia 25. Outro dia teve um Captain´s Meeting, é uma reunião com o Capitão e toda a tripulação, acontece no teatro. O Capitão Tor desejou feliz natal, ano novo, etc, edeu um update nos negócios, digamos assim. E nos contou que em Dezembro de 2000 o Splendour vai ao Brasil...A tripulação está em polvorosa, excitadíssimos.

Amanhã eu e os indianos do meu setor (inclusive o namorado) vamos fazer uma festinha de natal no México, e ele vão cozinhar comida indiana - apesar de hindu não comemorar Natal? É que há católicos na Índia também, apesar de minoria.

O México (Cozumel, na verdade) é o melhor porto prá mim... E pros marinheiros solitários também. Como eu trabalho na cozinha rodeada de homens, eles conversam besteiras e as vezes se esquecem que eu estou ali. Então fiquei sabendo pq o povo fica do jeito prá sair em Cozumel.. É que lá tem uma "casa de família" com "moças trabalhadoras"... Coitadas, cada um que elas devem ter que "enfrentar", entre filipinos, indianos, jamaicanos, todos uma gente muito bonita, sabe?Ah, se eu pudesse botar fotos... E para aqueles que não utilizam estes "serviços", há o Carlos'n'Charlies, um bar temático, onde a galera vai beber até cair, e depois vem trabalhar defogo. Surreal... Mas como a vida é muito besta na cozinha, por conta de pouco tempo prá sair, qq 5 minutos de diversão é lucro.

Nos últimos 2 cruzeiros ficamos em Aruba até a 1 da manhã. Só fica no navo que tá de serviço mesmo. Na rua é só garçon, cozinheiro, copeiro, o pessoal vai em casino, puteiro... A maior farra, mesmo que só por 2 horas.

De qq jeito, tô tentando pedir uma transferência para o bar, que trabalhar nessa cozinha não tem nada a ver com ser chef. Apesar deestar trabalhando no café da manhã já a algumas semanas, eu monto pratinhos de salmão defumados, frutas em calda, faço milhares de canapés, ajudos com as entradas frias, mas não é cozinhar... É uma linha de montagem! Tô fora...

Feliz Natal e feliz Ano Novo para todos. Vou estar no Haiti, e vocês?

domingo, novembro 21, 1999

México

Este post é rapidinho... Estou novamente no México. Saí do trabalho mais cedo, comi comida mexicana, tomei uma cerveza (é só uma mesmo, senão não dá prá trabalhar depois), e agora volto rápido para o navio para me refrescar e descansar um pouco antes do trabalho.

Algumas mudanças acontecendo por aqui... O indiano que se dizia me chefe, o que trabalhava comigo nas saladas, virou namorado... Até que é bom ter alguém pra dividir os "problemas", e ele também me dá uma mãozona no serviço.

A picação de alface continua, e várias vezes me sentei na cama após o serviço e chorei, pensando que eu não tinha estudado prá isso, e que eu não precisava deste serviço por 700 dólares, que só tenho 25 anos e posso começar de novo... Confesso que o namorado ajuda a reduzir todo este stress, mas mesmo assim, as vezes não é fácil... Mas a boa notícia é a picação de alface vai acabar, e eu vou me mudar para o café da manhã. Vou entrar muito mais cedo no serviço, mas também termino muito mais cedo. E durante as tardes terei tempo para sair prá conhecer os portos.

Bom, agora preciso correr...

domingo, novembro 14, 1999

Agora da Jamaica

Cheguei de novo! Com algumas novas impressões de bordo. Estou na Jamaica. Meu chefe perguntou quando eu gostaria de ter meu off e e disse que na Jamaica. Leia bem: off não significa que eu poderia "não trabalhar" hoje, mas sim que eu poderia deixar de trabalhar algumas horas... Mas repare, uma vez que as tarefas são muito bem divididas, se eu não completar aquelas designadas a mim, ninguem o fará. Portanto, para poder sair do navio algumas horas, eu tenho que dar conta defazer todo o meu preparo pro jantar. O que significa que eu preciso, então, começar mais cedo. Então peguei no batente as 5 da matina, pra poder picar todas aquelas folhas pra 2000 pessoas...

As 10 da manhã eu já estava livre, dei uma descansadinha e as 11 eu saí. Estou em Ocho Rios, na Jamaica. Um taxista me "ofereceu" seus serviços de guia e me levou pra dar uma voltinha pela cidade. Primeiro fomos ver a principal atração turística, Dunn's River Falls, uma cahoeira que tem niveis, como mega degraus de pedra, e termina na praia. Então, começando na praia, os turistas sobem pelascascatas. Bonito. Mas Bonito, no Mato Grosso do Sul, é mais,verdade! Depois fui comer jerk chicken, a iguaria típica, que é um frango extra-temperado e apimentado assado em brasa, como o nosso churrasco. É servido com arroz e feijão, mas diferentemente do nosso, o feijão é como que cozido junto com o arroz. Não tem caldo, é tudo misturado. Para beber, Ting, um refrigerante jamaicano - só existe aqui - feito de grapefruit. Bem gostoso. Durante o almoço no lugar bem simples que o tal taxista me levou, tocava Bob Marley ao fundo. Quase um clichê, mas foi gostoso. E então, começou a chover, muito! Eu tinha apenas 1 hora para voltar ao navio. Até aí tudo bem. Mas no fim, quando o taxista diriga o taxi de volta, em direção aocentro, meteu o patão na minha perna e soltou um "I love brazilian girls...". Aí eu já fiquei nervosa,mandei ele tirar o mãozão e mandei parar ali, senão eu ia gritar. O cara ficou meio bolado, e me pediu 50 dólares. Paguei, porque fiquei com medo. Ele ainda falou umas barbaridades quando saí do taxi, mas tudo bem. Corri pradentro do Internet Cafe de onde lhes escrevo este post...

Decepção com a tão sonhada Jamaica, devo dizer...

Mudando de assunto, a nossa rota este cruzeiro é - saindo de Miami - Key West, Cozumel, at sea, Grand Cayman, Jamaica, at sea, Aruba, Curaçao, 2 at sea, Miami de volta. Até o final do ano ficaremos nisso. Reveillón muda um pouco, e passaremos o dia 31 no mar e dia 1 estaremos em Labadee, a "ilha" particular da Royal Caribben no Haiti. Parece muito divertido... MAS NÃO É!!!

Primeiro porque, em Miami, tenho poucas horas. É dia de embarcação . Não há almoço, mas tenho que preparar as saladas para o jantar. No final do cruzeiro as folhas já estão prá lá de Bagdad, então prá começar o serviço tenho que esperar as folhas novas chegarem a bordo. Tenho menos tempo de preparo...

Neste Key West, não pudemos aportar porque o mar não estava prá peixe. O navio balançava tanto que os carrinhos com pratos andavam sozinhos pela cozinha! 30% da tripulação enjoa, o hospital lota, os passageiros comem menos. Eu até gosto disso, pois é gostoso prá dormir a noite. Não enjôo nem a pau... Nasci para o mar, sou filha de Iemanjá! Ao invés de pararmos no porto, passamos o dia navegando.

Paramos em Cozumel,emseguida, como previsto. Quase tivemosque passar a noite lá, a tripulação ficou eufórica - mas foi alarme falso. Netuno colaborou com nosso nórdico capitão Tor (sem brincadeira,ele é da Noruega). Ontem a noite balançou bastante, quase não paramos em Grand Cayman, já que lá não tem pier - tem quelevar os passageiros a praia de barquinhospara 150 pessoas de cada vez, esta operação chama-se tendering.

Minhas horas são pouquíssimas, e a tarde termino tão cansada que só quero dormir. Não tenho nem vontadede sair. Se quiser sair, tenho sempre que começar as 5 da manhã, e sair depois de ternminar, para então entrar a noite no mesmo horário. E confessando, depois do pequeno "incidente jamaicano" hoje, prá que? Melhor dencansar.

O trabalho vai bem, dentro do possivel. Iam me transferir de setor, me passando para o café da manhã, onde o serviço é mais leve, mas ainda não rolou. O Chef Executivo corporativo veio visitar o navio e disse aso meu chefe que já tinha dito isso antes, não queria mais ver mulheres na salada... E como em qualquer cozinha do mundo, as coisas as vezes ficam confusas, especialmente se vc tem gente aoseu redor falando um inglês ininteligível, além de suas mais de 20 línguas nativas.

Os indianos tem sido pais para mim. Me dão comida indiana (eles cozinham a comida deles todos os dias, não comem outra coisa), que apesar de ser forte e eu não gostar na maioria das vezes... Me ajudam no trabalho, e me defendem dos grosseiros garçons famigerados.

Apesar de todo o cansaço, tá dando prá levar. Além da rotina de trabalho, tem os malditos treinamentos (emergência, muito importante, caso o navio AFUNDE, cultura da corporação, Higiene na Cozinha, etc...).

Até a próxima...

sábado, novembro 06, 1999

A primeira vista II...

Bem, continuando a "aventura"...

Acordei no dia seguinte moída. Fui direto para a cozinha. Nem tomei café da manhã, porque não sabia onde era o refeitório. Agnes tinha saído um pouco antes de mim. Cheguei na cozinha, e o tal cara que tinha me agarrado pelo braço e me levado pro andar de cima da cozinha, já chegou e já ordenou que fosse com ele. No caminho tive tempo de perguntar o nome dele (Hemendra) e de onde ela era (Índia, como aparentemente todos oscaras que trabalhavam no meu setor, pantry).

Chegamos ao andar térrreo, no fundo do navio. Havia lá uma salinha com várias pias, várias mesas de inox e várias tábuas de corte. Então o cara me mostrou o meu local - uma bancada, um estrado plástico no chão, ao lado da bancada, uma pia e uma "máquina de lavar folhas". Nunca tinha visto uma daquelas, nem no catering do aeroporto de Cumbica quando fiz estágio lá. Então, o cara chegou com um negão imenso, que abriu uma porta de camara fria que dava de frente pro meu estrado plástico. O negão veio de lá de dentro com uma caixa no ombro e tacou a caiza no estrado. Nisso o indiano abriu a caixa, tirou uma cabeça de alface romana de lá de dentro e pegou um faca grande. Limpou as folhas exteriores da alface, picou o resto nuns 10 segundos, tacou dentro da pia, e disse que a pia estaria cheia de água e solução sanitizante. Quando a pia estivesse cheia, deveria tirar as folhas e secá-las naquela máquina, e ir enchendo umas caixonas plásticas com alface picada. "Você tem até as 3 da tarde para fazer isso. Precisa encher umas 4 e meia dessas caixas plásticascom folhas picadas. Hoje o jantar é formal, e a salada é Cesar Salad, que sai muito. Certifique-se que você tenha alface pros dois turnos de jantar" (explicação: como o restaurante principal acomoda só metade dos passageiros, o jantar é feito em dois turnos, cada um para mais ou menos mil pessoas...). Eu olhei aquela caixa de alface ali e achei que seria fácil. Até me esqueci de dizer ao indiano que as 8:30 da manhã eu tinha um treinamento. E no treinamento de ontem, eles disseram que haja o que houver, não se falta a treinamento.

Então o indiano me explicou que ele cuidaria das folhas para o almoço, e faria os croutons, o molho e ralaria o queijo para a salada. "Vai ser fácil", pensei. Então o indiano disse ao negão "Pode tirar tudo e botar aqui, ó. Ela entendeu o serviço". Então o cara começa a sair de dentro da câmara fria com caixas de alface romana de 2 em 2. E começa a empilhá-las no estradinho de plástico. Quando ele ternimou, a pilha era maior que eu. Aí eu saquei a gravidade da coisa...

Mas então logo depois tive que sair correndo pro tal treinamento. Tinha um filipino que trabalhava lá comigo, e pedi a ele que avisasse se o indiano viesse atrás de mim, que eu tinha ido. Voltei umas 2 horas depois (no treinamento havia croissants, donuts, suco de laranja e café, então tinha comido algo...). Quando cheguei no meu escritório o indiano me viu e se pôs a urrar comigo "Cadê vc, onde se enfiou, como sai sem me avisar, eu sou seu chefe!!!!!!!". E de cara disse que tinha ido ao training. E ele continuou gritando queeu não poderia ter ido, que agora estávamos muito atrasados, que eu não ia terminar o serviço nunca.... Então eu disse que se acalmasse, parasse de gritar, que ele NÃO era meu supervisor, esim o indiano de óculos que estava lá em cima (a chef sueca tinha me explicado isso), e que eu precisasse passar a tarde toda picando a porcaria de alface, eu ficaria. O cara foi embora. O filipino soltou um "Vc é corajosa...". E eu respondi a ele que não era só porque eu era nova que eu ia ter que engolir desaforo, ainda mais sem ter culpa, ué....

Então passei a tarde toda picando aquelas caixas de alface toda. Terminei as 4 da tarde. Já não tinha niguém na cozinha quando subi prá guardar a alface picada. O indiano gritão tinha me ajudado. Claro que eu tinha perdido o almoço... Tava azul de fome. Então na camara fria o indiano me deu um sanduba - e de novo dizendo prá não deixar ninguém ver, que é proibido comer na cozinha...

Fui descansar uma meia hora, e as 5 já tinha que estar de volta na cozinha... Prá ajudar a montar as saladas. E nada de jantar... Servi as saladas do primeiro turno e lá fui eu recolher mais pratos limpos, jantar de novo escondida na camara fria pois o senhor indiano do andar de cima foi o único que perguntou se eu tinha jantado.

Pra vocês terem uma idéia, só no segundo dia, depois que acabei de picar todas as folhas, é que alguém se lembrou de mostrar onde era o refeitório, e de me mostrar os horários de funcionamento...

E assim tinha início minha vida de picadora de alface....

A primeira vista...

Bom, fiquei devendo um post sobre o primeiro dia, então lá vai...

De manhã, no dia do embarque, me despedi do Márcio, meu amigo que me hospedou. Ele não pode ir ao porto comigo pois tinha aula. Então me colocou no táxi e lá fui eu. No caminho, o motorista perguntou se eu ia fazer um cruzeiro. Lhe respondi que ia era ser tripulante, trabalhando na cozinha. Papo vai, papo vem, eu olhando a bolsa a toda hora só pra reconferir pela milionesima vez se todos os documentos estavam lá,etc. E então o taxista solta a pérola "Então, acho que vc vai trabalhar a beça, olha o tamanho do barco!". E então ergui a cabeça e por alguns segundos prendi a respiração.... Nunca vivi em cidade portuária, então não era acostumada a ver navios. Achei aquela coisa imensa!!! E o taxi virou pra entrar no porto. Meu coração a mil por hora. O taxista desejou boa sorte...

Naquela confusão de gente e bagagem, olhei pra cima de dentro do terminal, pela janela, e contei 9 andares. Naquele momento eu queria gritar e chorar. Não acreditava que estava ali, tinha conseguido, e não estava embarcando num navio pirata ou coisa parecida. Era tão bonito o tal navio...

E então abri a bolsa procurando o numero da Embratel pra ligar a cobrar. Liguei pra casamas nao atendeu... Entao liguei no trabalho da minha melhor amiga, a Ana Paula. Ela mal atendeu eu desatei a falar... Desabafei um pouco. Desliguei, me recompus e fui me apresentar. Havia um senhor ingles de uniforme de marinheiro, recebendo os tripulantes. Ele bateu o olho na papelada e me mandou entrar. Havia uma pessoa com uniforme de cozinheira me esperando. Se apresentou, era a Sous-Chef. Ja me foi levando aqui e ali, falava, falava, e eu não "ouvia" nada, mas estava me esforçando pra entender tudo. Primeiro fui a uma sala cheia de gente, assinar o contrato de trabalho. E recebi um envelope com a a chave da minha cabine, um cartão cheio de números... De lá a chef ja foi me ajudar a achar a cabine. Ate mandou uns caras me ajudarem com as malas. Descemos umas escadas,vira lá,vira cá... Abri a porta...Gente, que ovinho! Mas não deu nem tempo, ela me mandou escolher uma cama - peguei a beliche de baixo, e já saimos de novo. Ela me levou pra pegar uniforme, na lavanderia pegar roupa de cama, e me disse pralevar tudo pra cabine e ir encontra-la na cozinha quando terminasse.

Quando finalmente consegui achar a cabine, a porta estava aberta, havia uma outra garota la, uma sul-africana, que ia trabalhar como waitress. Nos comprimentamos, eu taquei roupas de cama e uniformes na cama e já sai de novo procurando a cozinha. Demorou,mas achei - fui perguntando no caminho. Achei a chef e ja saimos de novo. Ela andando rápido e eu atras. Era um entra aqui, sai ali, sobe e desce escada, elevador.... Ela foi me mostrar o local onde eu deveria ir a um treinamento ainda esta tarde, e depois foi me mostrar meu posto de emergência - ??????? E eu com cara de ?????

Chegando no lugar, ela me explicou que toda vezque houvesse uma emergencia ou um treinamento de emergencia ela ali que eu tinha que ir. E de la, devia depois ir para outro lugar, de onde embarcariamos nos salva-vidas (só caso acontecesse alguma coisa!). Se eu tava assustada? Rapaz...... Então ela me explicou que o treinamento de logo mais era pra isso, mas que ela so queria me mostrar o local, pra eu não ficar muito perdida depois.... De lá voltamos a cozinha, ela me mandou ir comer, e eu respondi que não tinha fome (estava tão nervosa,intimidada, apavorada...). Então ela me madou voltar a cabine e arrumar as coisas, dar um relax, para depois ir ao treinamento e por fim, TRABALHAR! Eu perguntei se já tinha que trabalhar hoje, ela quase riu. Disse que obviamente sim, pois a pessoa que eu estava substituindo tinha saido de férias hoje. Tudo bem!

Depois de mais um tempo rodando e procurando a cabine, quando chego encontro uma filipina, ao inves da sul-africana. OOOPS! Cabine errada... Ela disse que não, que a outra garota e que tinha sido mandada pra la por engano. Entao, ah, vc vai ser minha roomie... Apresentações de novos,etc. Então ela foi encontrar a chef pra fazer aquilo tudo que eu ja tinha feito. Aproveitei para desfazer as malas, arrumar a cama, fazer tudo caber naquele espacinho... Quando terminei sentei um minuto. A Agnes voltou e perguntou se eu não ia almoçar, pois estavam fechando o refeitório. Disse que não tinha fome, ela deu de ombros.

Então fomos juntas ao tal treinamento, ou Pre-Departure Safety Training. De acordo com o regulamento internacional, todo e qq tripulante deve passar por ele antes que o navio parta. Assim, se acontecer alguma coisa, eles já saberão como proceder. Aqui durou umas 2 horas. saindo de lá foi o tempo de as 2 tomarem banho, vestir o uniforme e sair para a cozinha. Deveriamos nos apresentar as 5 da tarde.

Chegando na cozinha, ja havia muitos funcionarios por la. Então a chef nos levou ao nosso posto - pantry, a cozinha fria, responsavel pelas saladas, entradas frias, frutas, canapes, etc (não era a confeitaria, como o Sr Tulio já me havia dito...). Só havia homens, e eles tinham uma cara muito esquisita. Quase todos tinham um bigodão. Apresentações daqui, boas vindas de lá, e o chef do setor " Bom, agora vamos trabalhar, que já vai começar o jantar... Quem quer ficar com qual?" E um caraja me catou pela mão e já foi me levando pro andar de cima. Me botou em frente a uma mesa grande de inox, com umas 6 geladeiras atrasde mim. Trouxe um carrinho cheio de pratos. Depois uma caixona de folhas, outra com tomates fatiados, outra com champignons frescos picados, e um container com pignolis. Tacou tudo ali. Pegou um pratinho, montou uma salada, e me preguntou se eu tinha entendido. "Sim...". E ele "Como já viu, vc vai fazer as saladas". Eu disse OK. "Só isso mesmo?" E ele respondeu, sim ,mas voce vai ter que encher as 6 geladeiras ai atrás...E tem 1 hora pra fazer isso. Lágrimas apareceram nos olhos, mas as empurrei pra dentro! Tava com fome, afinal não tinha almoçado. Perguntei que horas poderiacomer algo, e o cara disse que mais tarde, depois que eu terminasse as saladas.

Então comecei. Havia um senhor mais velho me ajudando. Eu perguntei se ele trabalharia comigo, ele disse que não. Que só estava me dando uma força pq era meu primeiro dia. E começamos, e conseguimos. Logo em seguida começaram a aparecer garçons ali e levar as saladas. Me aliviei, pois havia terminado. Fui perguntar ao senhor mais velho se podia comer agora. Ele disse que não, pois esse era só o primeiro turno, e eu deveria repetir a operação para o segundo turno de jantar. O que??????????? E vi então que o cara ficou compena de mim. Então alguns minutos depois ele me apareceu com um prato de macarrão e me apontou a câmara fria em frente a mesa de serviço. E disse "Coma lá dentro, e rápido. Não deixe ninguém te ver, pois é proibido comer dentro da cozinha!" Eu catei o prato e voei. Acho que devorei em menos de 5 min. (esta nota eu resolvi acrescentar anos depois... Depois de muitos anos,eu já como chefe, quando recebia meus tripulantes de primeira viagem, sempre os levava ao refeitório primeiro de tudo, e sempre fiz questão de dizer a eles que comessem quando eu lhes dissesse, pois mais tarde poderia não haver mais chance. Este trauma ficou,viu...)Então ele catou o prato vazio e sumiu, voltou correndo e disse praeu agarrar o carrinho de pratos e ir encontrar o cara que tinha me trazido la pra cima no lava-pratos.

Chego la com o carrinho, e o indiano que era a meu chefe imediato tava agarrando pratos que saiam da lava-louçascom os dois braços, e começou a tacá-los no meu carrinho. E disse, "hoje eu to te ajudando, mas a partir de amanhã vc fará isso sozinha... É preciso recolher os pratos e esfriá-los na camara-fria, pra vc poder começar a montar as saladas outra vez. O segundo turno começa em menos de 1 hora e meia..." Já deu prá sentir que eu queria chorar, né... Mas me segurei e terminei o serviço, imaginando que amanhã melhoraria, pois eu teriamais tempo. Mal sabia eu...

Fui pra cabine exausta... Tomei um chuveiro e caí na cama. Nem sei como lembrei de botar o despertador. A Agnes também tava podre. E como este post ficou muito longo, termino depois. Aguardem o fim desta aventura (ou seria presepada?).

Detalhe - na primeira entrevista no Brasil, o Sr Tulio achou que eu não tinha experiência na cozinha, mas acabou memandando como Assistant Cook, que é uma "patente" acima do nível de entrada, Cook Trainee... Salário de 700 doletas, contra os 500 do nível de entrada! Mas já tava na chuva mesmo, e fiz isso não pelo salário, mas pela experiência que isso iria me proporcionar.

sábado, outubro 30, 1999

Eu no Caribe...

Serei breve, pois tenho apenas 15 minutos para escrever este post.

Antes de chegar aqui no navio, havia pintado um inferno na minha cabeça, para me proteger. Ou seja, esperar o pior para não ter muita decepçãp depois. Quando cheguei aqui, vi que era tudo bem melhor. Lógico que no dia que cheguei já me fizeram trabalhar, mas esta é a dura realidade do navio. Minha companheira de quarto é filipina e trabalha comigo na cozinha. Boazinha a quietinha, só dorme.

No navio tem gente de tudo que é tipo. Na cozinha, dos piores. Muitos indianos, filipinos, e o resto jamaicano, dominicano, alguns latinos. Os garçons, com quem também tenho contato, são na maioria do leste europeu, indianos... Indiano é o que mais tem, tudo gente boa.

Trabalho no setor de saladas (PANTRY), que não é exatamente o que eu queria, mas já que estou aqui... Comecei bem, elesachamque sou rápida, e tem me dado a maior força. No meusetor, além da Agnes - a room mate - só tem indiano. Fora do meu setor, levo cantada o dia inteiro. Na cozinha só tem eu e a Agnes de mulher, e no deck 9, no buffet, tem uma jamaicana chamada Karen. E como eu sou carne nova E brasileira (a única no navio inteiro), aguenta... Já ouvi de tudo!

O bom de trabalhar numa Cia. americana é que eles dão proteção. Assédio sexual dá demissão na hora, basta você reclamar. Quando os caras passamdos limites com piadinhas ou algo assim, você diz " STOP!" e eles já somem. A sub-chefe é mulher (Chef Seidi), sueca, e nos damos muito bem. No próximo porto o Chef Executivo, um austríaco gordão, Michael, vai de férias, então Seidi assume.

O inlgês é um problema, poiscada nacionalidade tem um sotaque diferente - sul-africanos, australianos, ingleses, jamaicanos, indianos, os filipinos, os do leste europeu... Tem hora que dá nervoso.

Como já disse, a vida é muito dura, mas tem suas compensações. Tem prêmios e ações motivadoras o tempo todo. Na cabine tem televisão, vídeo-cassete e geladeira. Ontem era dia de pagamento e já recebi em cash por três dias de serviço (são pagos a cada duas semanas, mas como acabei dechegar...).

Ainda não fiquei enjoada e o navio saiu de Boston, e ficamos três dias no mar. É gostoso o balancinho para dormir a noite. E a última notícia, este navio tem 14 itinerários diferentes. Vamos fazer o Caribe, depois Europa, Canada e no ano que vem, Brasil....

Ultima curiosidade, pois ainda tenho três minutos... O navio é "ecológico", ou seja, nada é jogado no mar, a água é tratada antes de ser jogada, e o lixo ´que não pode ser incinerado a bordo (nem tão ecológico) é armazenado e depois desembarcado, com destino a reciclagem... Fiquei feliz com isso.

Quando tiver mais tempo contarei como foi o embarque e os primeiros dias de serviço...

sexta-feira, outubro 22, 1999

Uns dias em Santiago e Boston...

Nota - este post foi escrito postumamente, em etapas... É sobre os dias antes de eu embarcar.

Cheguei ao Chile...

O vôo da vinda foi legal, e a visão das cordilheiras dos Andes sao demais. Cheguei e fui ao hotel que fica ha 6 quadras do escritorio onde eu precisava ir, em um bairro legal chamado Providência. Liguei para o Sr. Tulio e ele ja me pediu para ir ate la naquele dia mesmo. De la ja saímos para pagar as taxas e tirar fotos para o visto americano de tripulante (C1/D). La no escritorio fiz amizade com pessoas que, como eu, embarcariam nos próximos dias - quase sempre peruanos e chilenos. E também me lembrei de perguntar quais seriam meus cargos e salário. Ele me disse que eu ia trabalhar na confeitaria (Oba!!!) e o salário por volta de 700 dólares, como ele já havia informado no Brasil. Na volta, ja no fim do dia, passei num supermercado, comprei comida e jantei no quarto. Banho e cama.

No dia seguinte, era a vez dosa exames médicos. Conheci uma peruana que fez os exames,e descobriu que tinha vermes, então teve que ficar aqui no Chile se tratando ate que o exame desse negativo, coitada... Fiz os exames de sangue, RX e parasitologico, e fiquei rezando... Enquanto aguardava os resultados, sai na rua e vi um morro. Andei ate ele e sem querer cheguei ao Parque Metropolitano de Santiago. O morro de + ou - 600 m de altitude é um parque. Peguei um funicular e cheguei no zoo. Fiquei um tempão olhando as onças que só vi de longe no Pantanal, mas nosso coração se parte. Passei a manhã por ali. Depois subi com o funicular de novo, e cheguei até uma estátua da virgem (Santiago tem o seu Redentor, mas é a Virgen de Concepción). Lá do topo se vê a cidade inteira com os Andes ao redor. Se não fosse tão poluído como SP, seria mais indo ainda. Da virgem cheguei a um teleférico, onde há um restaurante. Me sentei de frente para as montanhas - só se vê o cume nevado por cima da nuvem de poluição), e tomei um pisco sour. Acho que oschilenos e peruanos sabem prepará-los corretamente. Nós, brasileiros, nunca lhe demos a devida atenção.
Almocei, andei de teleférico - na volta parei no Jardim Botânico e Museu de Artesanato andino. Desci o morro , fui ao médico, e apenas o RX estava pronto. Voltei ao escritório do Sr. Tulio, e conheci dois peruanos. No dia seguinte eu deveria regressar e encontrá-los, para irmos juntos a Valparaíso, na Royal School e num outro médico que validaria nossos exames. E neste momento então tive que regressar ao laboratório onde tinha ido de manhã, para finalmente pegar o resto dos resultados. Fui de metro e a pé. Na volta, comprei comida no super de novo e jantei no quarto.

Nos dias seguintes - prá encurtar - tomamos um ônibus até Valparaíso, uma cidade cheia de morros muito altos que acabam no mar. É uma cidade tipicamente portuaria. Fomos a tal Royal School assistir um video sobre a vida a bordo dos navios. Depois fomos andando até um hospital feio, escuro, e cheio de marinheiros gregos a la Popeye encarando a gente. Pasamos por um médico bem assustador e saímos de lá rapidão, pegamos o ônibus de volta até Santiago, e aí ja era noite. No dia seguinte fui a Embaixada americana tirar o visto, que saiu na hora. E então fui resolver minha passagem até Miami e Boston com o Sr Tulio. Ele queria que eu comprasse uma passagem de LAB (Linhas Aéreas Bolivianas). Disse a ele que preferia pagar a passagem eu mesma,e comprei - por telefone - uma passagem da United "direto" pra Boston. Na verdade fiz conexão em Miami e Washington, DC. Em Boston ficaria hospedada na casa do meu amigo Márcio, que mora lá.

Foram duas noites curtinhas em Boston. Foi legal passá-los com o Márcio, amigão de colégio. Eu inclusive já havia ficado lá com ele um ano antes, quando fui de férias pro Canadá e EUA. Só que ele agora morava num lugar diferente.

O próximo post será sobre o dia em que finalmente embarquei...

sábado, outubro 16, 1999

Vou entrar de gaiata num navio!

Este é o primeiro post deste blog, que vai contar minhas futuras aventuras trabalhando a bordo de um navio de cruzeiros da Royal Caribbean Cruises.

Pra quem não sabe, depois que terminei o curso de Cozinheiro Chefe Internacional (CCI) do Senac, em 97, fiquei um tempo fazendo bicos, até que no início de janeiro do ano passado me mudei pro Pantanal, pra trabalhar num hotel-fazenda ecológico. Isto dava um blog a parte, então pulamos pro fato de que um ano depois, achando que tinha abandonado minha carreira de chef, voltei pra SP.

Um belo Domingo lendo o caderno de empregos do Estadão, dei de cara com um anúncio em inglês, que chamava para um recrutamento para a Royal Caribbean. Me lembro que desde o tempo da faculdade de hotelaria eu lia a Revista Viagem & Turismo e sonhava, ao ver as propagandas da Royal. Então pensei, "Por que não? Não custa nada tentar..."E lá fui eu, com currículo debaixo do braço e a cara de pau... A entrevista era bem num feriadão em SP, a cidade estava bem vazia. Ao entrar no hotel, me encaminharam ao Centro de Convenções, e para minha surpresa não havia muita gente esperando. Então um senhor veio em minha direção e tentou falar portugês, mas era de lingua hispânica. Leu meu CV e disse que eu não tinha muita experiência para a vaga aplicada - queria trabalhar na cozinha... Mas me mandou esperar mesmo assim.

Depois entrei numa sala, e o homem que faria a entrevista estava sentado. Começou falando inglês, e assim foi até o fim. Eu achei que tinha ido bem, pois havia um grande entrosamento na conversa, e eu estava muito a vontade. Acho que o fato de meu inglês ser muito bom ajudou... Mas na verdade eu saí de lá sem muita expectativa, pois o tal hispano não tinha ido com a minha cara.

Duas semanas depois ele me ligou e se identificou. Era o hispano. Perguntou se eu poderia comparecer a um outro hotel naquela semana, e la fui eu, muito curiosa. Quando cheguei, haviam umas 30 peesoas esperando. Então o tal hispano chegou, nos levou pra dentro de uma sala e perguntou se sabíamos porque estávamos ali. E respondeu ele mesmo que nós todos tínhamos passado na pré-seleção. A partir dali ele nos daria instruções para que pudessemos tomar nossa decisão.

Então, ele era um agente de contratação da Royal Caribbean, o único na Américado Sul, e seu escritório ficava no Chile. Os aprovados que quisessem dar continuidade ao processo de contratação deveriam viajar ao Chile, onde deveriam ficar por uma semana aproximadamente, por conta própria. Pagar todos os exames médicos necessários e despesa com visto, além da estadia e passagem aérea, além da passagem aérea até o porto de embarque.

Depois da apresentação, metade da galera já broxou achando que deveria ser algum tipo de tramoia, exploração, sei lá. Eu pensei muito no assunto e fiquei muito ansiosa, mas resolvi arriscar depois de conversar muito com minha família. Meus pais toparam arcar com as despesas.
Duas semanas depois desta última entrevista, o chileno, Sr Tulio, telefonou e perguntou se eu tinha me decidido. Disse que sim, que toparia, e ele disse que eu deveria estar no Chile dentro de uns 10 dias. Foi uma Sra. correria, médico, passagem ao Chile, festinha de despedida, etc.

Por sorte uma ex-professora da faculdade tinha uma boa posição numa cadeia de hotéis na América Latina, me conseguiu um descontasso na hospedagem num hotel de boa categoria e num bairro bom em Santiago.

E assim me preparei para partir, sem saber o que me agurdava do outro lado, com a cara e a coragem. A única certeza que tinha era que, se eu estivesse me metendo numa fria, voltaria rapidinho.

Este blog narra daqui por diante todo o épico...