Bom, é isso mesmo... Leo, o namorado irlandês e eu terminamos a relação de um ano e pouco. Ele disse que queria coisas diferentes, e eu concordei. Foi duro, ainda mais porque não só sou obrigada a saber que o bicho está na mesma lata de sardinha gigante que eu, 24 horas por dia, mas além disso a loja onde trabalha é exatamente ao lado do bar onde eu trabalho. Enfim, meus amigos estão aí para dar apoio mesmo... E saímos da Finlândia rumo a um estaleiro em Hamburgo, na Alemanha. A saída de Turku foi linda porque o mar estava congelado, e precisamos ser rebocados até o Báltico. Um dos quebra-gelos se chamava Apu (para os fãs dos Simpsons...). Os funcionários do estaleiro ficaram lá no pier dizendo Adeus ao navio que eles construiram por 37 meses.
Durante aquela noite o navio navegou bem devagar em meio a uma grossa camada de gelo quebrado, e eu escutava os blocos de gelo raspando na parede do navio - minha cabine era lateral, no deck zero, como toda cabine de peão, né gente... Uns dias depois, já em alto mar, que na verdade não era alto mar e sim o báltico, todo o suspense depois de contornar a Suecia, para passar em baixo da Storebelt Bridge, que é uma das mais longas do mundo.
Na Alemanha ficamos, ainda sem passageiros, em doca seca (dry-dock) por mais cinco dias. A equipe precisava trocar um propeller com defeito. Então seguimos no mesmo ritmo de Turku - trabalhando em "hora comercial" e a noite, bota festança nosbares. Hamburgo é uma cidade bem bonita. E no dia 24 de abril o CEO da Royal Caribbean assinou o contrato de posse no navio, numa cerimonia chique na ponte de comando do navio. Claro que eu, Nadia e Kristine servimos as bebidas. Até aparecemos na TV, no especial do Discovery sobre a construção do Freedom. E depois disso, o navio pertenciaa Royal, assim que podiamos fazer que faziamos num navio da Royal. Para comemorar, a primeira Full Crew Party a bordo no crew bar - em Turku eram em uma disco na cidade.Depois destes últimos cinco dias de férias, começamos então a receber ai mprensa européia, agentes de viagem e VVVVVIP guests, para cruzeiros de uma noite "to nowhere". A cada dia embarcavam aproximadamente 3000 pax, e saíamos com elas dando "uma voltinha no mar" - assim eles teriam chance de experimentar "the Freedom of the Seas experience". Detalhe que tudo era grátis para este povo sortudo. Eu e Nadia trabalhando no restaurante principal, responsáveis pelo estoque de vinhos (como boas e responsáveis wine tenders, as mais experientes da equipe, sacumé?). Vinhos que seriam servidos a vontade E DE GRAÇA no jantar... Enfim, fizemos isso na Alemanha, depois Oslo. A norueguesada bebia o triplo do que bebiam os alemães, e por conta disso o pessoal do bar tomou na cabeça, porque dá-lhe repor estoques todos os dias. Nem deu pra sentir o cheirinho de Oslo. E da Noruega para a Inglaterra, onde também não consegui sair do navio nem uma vez.
Então chegou a famosa travessia do Atlântico - seis dias em alto mar. O tempo estava divino. Muito sol, apesar da baixa temperatura. Não havia hóspedes a bordo conosco, exceto ainda alguns trabalhadores (porque afinal de contas o maledeto navio ainda não estava 100% pronto!) finlandeses e alemães, e uma equipe de TV belga que filmou um capítulo inteiro de uma novela. Muito engraçado, todos os dias anunciavam nos alto-falantes que precisavam de extras. E para "testar" os serviços, várias áreas abriram para os tripulantes. Todos os dias as piscinas, jacuzis, parede de escalada e toda a área de esportes abria, o restaurante principal abria pra podermos testar a cozinha, os show de variedades, as paradas e o show de patinação foram apresentados só para nós, e a cada noite dois bares abriam. Foi muito divertido. Mas então chegamos a New York, onde seria realizado o batismo do navio, e fomos recepcionados por 25 helicópteros da imprensa. Um episódio do Today Show com Katie Courik foi filmado a bordo, muita imprensa, um evento do Spike Lee tambem rolou, com direito a Oprah, Wesley Snipes, Morgan Freeman, etc. De New York a Boston, no mesmo esquema - 3mil in, cruzeiro até a esquina, 3000 out. Todos os dias, tudo de graça para os passageiros. E enfim, no dia 2 de junho de 2006 finalmente chagamos a Miami. Teríamos 2 dias para abastecer com os produtos de costume, pois até então tinha sido tudo especial e diferente. Neste dia também encontramos o Navigator no porto e eu consegui um tempinho para correr lá e dar um oi pros meus antigos companheiros. Alguns deles tambem vieram conhecer o Freedom.
E depois de exatos dois meses de muito trabalho, mas tambem muita diversão, o Freedom of the Seas partiu pro abraço com seus primeiros 4200 passageiros pagantes, no dia 4 de junho de 2006. Agora era hora de começar a ganhar dinheiro!
E com tanto trabalho, e tanta diversão, nem deu muito tempo de pensar no irlandês com tristeza. E no fim nos tornamos amigos...
Ah, e detalhe: eu era a única brasileira a bordo, num universo de 1400 tripulantes. Dá pra por a banderinha, né?