Hoje de manhã chovia... E eu tinha que pegar o ônibus pra ir dar a minha aula. Saí cedo demais de casa - mania de paulistana - em SP, se você precisa estar em algum lugar às 9, saia duas horas antes! E ainda assim você vai se atrasar! Enquanto esperava, fui dar uma fuçada no centro turístico, dar uma olhadinha nas coisas. Achei um panfletinho com a história da cidade (reproduzirei em outra ocasião), dei uma lida, então lá vem o bus. Logicamente a motorista era a mesma! Dei risada ao olhar pra ela, porque me lembrei do vexame anterior. Porém, dessa vez, disse à ela, em noruga, "Bom dia! Mesmo lugar! " mostrando à ela o bilhete da viagem anterior, e já dando as moedinhas. Ela sorriu. Yey! Existe vida feliz atrás das direções de busão em Bodø...
E então, sentada no busão, lembrei de uma história gozada que resolvi contar - mais para futura auto-lembrança que por qualquer outro motivo. Afinal, esse blog conta minha vida (maomenos) há dez anos. E essa viagem foi meio pulada...
Pois é. Antes de conhecer Lars, eu tinha um namorado irlandês no navio. E em 2006 vim passar férias nas "Oropa" com ele. Passamos uns dias lá na terra dele, e depois saímos on tour. O primeiro lugar do tour foi a Hungria. País onde falam aquela língua que, de acordo com Chico Buarque (aprendi isso num blog, blog é cultura), nem o diabo compreende. Pouca gente na Hungria fala inglês. Se você seguir os guias turísticos e ficar em locais turísticos, é provável que não enfrente problemas. Mas o Leo era um sujeito muito descolado, e resolveu ficar num panzio, ao invés de um hotel ou albergue. Ele fez a reserva pela net. Panzios são casas de família, mais ou menos como se a família tivesse uma edícula nas fundos da casa, com cozinha, quarto, banheiro, entrada separada, etc. Um jeitinho pós-comunismo de famílias húngaras faturarem um troquinho extra. Eu super recomendo, mas... Em geral são longe das áreas centrais. Hoje em dia já existem panzios que são praticamente hotéis, mas o nosso era bem simples, um puxadinho acima da casa onde a família morava. Mas era enorme!
Budapest tem duas áreas principais, que são divididas pelo Rio Danúbio. De um lado, Buda, a parte mais residencial, cheia de colinas, e aqueles edifícios horrorosos da Era Comunista, que parecem pombais, e do outro Pest, a parte mais central, onde se encontram as atrações turísticas, a cidade antiga, a vida norturna... Então, nosso panzio era em Buda, e ainda por cima no alto dum morro. Pra ir à Pest, precisávamos pegar um ônibus pra descer o morro, andar um pouco, pegar um trenzinho que atravessa o rio, e dependendo do destino, então o metrô (um metrô sinistro, também da Era do Comunismo).
Fora que os nomes das estações de metrô levam minutos pra serem decifradas se você conseguir distinguí-las at all. Mas Leo era profissa, pois conhecia a cidade.
Então, quando chegamos à cidade, saímos do aeroporto de busão, chegamos ao metrô depois de uns 45 min, daí umas cinco estações de metrô, daí o trenzinho que atravessao rio, daí outro bus, e daí tínhamos o bus de subir o morro. Cadê que ele vinha? Pra ajudar, o telefone do Leo estava sem bateria, e era um Domingão à noite. Não havia muita gente na rua - e muito menos táxis! O que salvou a noite (tava bem frio) foi um MacDonald's do outro lado da rua. Entrei e sentei no quentinho, enquanto o Leo tentava se atirar de algum eventual táxi. 40 minutos depois,ele conseguiu. O taxista não falava inglês. Leo mostrou um mapinha impresso da net com a direção do panzio. Mais a subidona de morro, e voilá. O dono da casa achou que não chegaríamos mais.Contamos à ele a saga, e ele disse que os ônibus no Domingo demoravam mesmo. Então, muito gentil, ele nos disse onde poderíamos comer algo - que não fosse McDonald's. Tinhamos que descer o morro de ônibus. Então veio o detalhe fundamental... Na Hungria você entra no buso pela frente OU por trás, o mesmo pra descer. Há umas maquininhas no buso onde você, honesto passageiro, picoteia o bilhete. "Tá, mas onde compra o bilhete?" e ele "Ah, hoje é Domingo, vocês não compram. Mas podem pegar o ônibus, não tem problema. Mas comprem bilhetes amanhã, às vezes aparece um fiscal, e se você não tiver bilhete, é multa." Ah, e em 2006 a Hungria ainda não havia adotado o Euro. E descemos o morro de buso, depois do jantar numa pizzaria, subimos o morro de buso, sem pagar, sem problema. Na segunda, descemos, ainda sem pagar, pois pra comprar bilhete, só na cidade e nas estações de metrô.

a sala do panzio - o lugar era imenso, e bem confortável
Então, depois de um dia inteiro pra cima e pra baixo de metrô, na hora de voltar pro panzio, lembramos do ônibus. E fomos ao caixa do metrô tentar comprar um bilhete integração. A caixa não falava lhufas de inglês, e nós, absolutamente nada de húngaro (aliás, eu aprendi a dizer "tim-tim" e um palavrão em húngaro, mas não ouso escrever!). Então, ela nos deu um bilhete de metrô e um cor-de-rosa. Presumimos que fosse o do ônibus.
Então, passamos a picotar o bilhetinho rosa no busão do morro. Até que na terça à noite, pegamos o penúltimo ônibus pra subir o morro, eis que sobe o fiscal. Nós pegamos os bilhetinhos rosa picotados e mostramos pro cara. O ônibus estava lotado, e o cara veio direto na gente - como que sentindo o cheiro de turista.
Ao mostrarmos o bilhetinho rosa, o cara começou a abanar as mãos que não, e Leo foi tentar explicar que comprou na estação do metrô, etc. Quanto mais tentávamos explicar, mais nervoso o cara ia ficando, gritando, agitando as mãos, abrindo a bolsinha de fiscal dele. Então, puxou um tabelão da bolsinha, apontou um preço lá e começou a escrever num bloquinho. Putz, multa, pensei.
Nessas alturas, o ônibus inteiro olhava pra gente, nós com as sacolinhas do mercado, acuadinhos no fundo do busão... Não restou nada a fazer, além de pagar, ué... O equivalente de 20 Euros por cabeça, uns 40 Euros.
Pra não dizer que ter ficado hospedado no panzio não compensou, pois se tivéssemos ficado num albergue em Pest talvez tivessemos gasto mais mesmo. Não lembro o valor do panzio, mas era muito mais barato que o albergue. E como essa viagem tinha ficado muito barata (de Dublin a Budapest de RyanAir por 18 Euros por cabeça - viu? Mais barato que a multa!), não reclamamos mais disso. Aliás, não tocamosmais no assunto. Mas não consigo esquecer da vergonha terrível que passamos.

E como sempre, tudo tem seu preço na vida. Budapest é uma cidade fabulosa, considerada a Paris do leste europeu, e deve ser incluída em planos de viagem futuros. Se resolver ficar num panzio, assegure-se que esteja localizado em Pest!




