Ontem quando vínhamos de Styrkesnes o chefe do Lars telefonou pra dizer que ele tinha que estar em Glomfjord hoje às 4 da manhã... Então ele achou melhor viajar ontem mesmo e pernoitar, ao invés de acordar de madrugada e dirigir sonolento. Além disso, minha sogra está mal da pneumonia de novo (os médicos deram bronca, que ela não tinha nada que ter viajado e mexido em jardim, e sim tratado de repousar e se recuperar...). Enfim, a questão era meu teste de tuberculose... Quem ia me levar?
Quando cheguei em Bodø há um mês e pouco atrás, nos primeiros dias já fomos à UDI - órgão do governo que cuida da imigração - pegar meu visto (obrigatório fazê-lo em até 7 dias da chegada) e já fui perguntando tudo - escola, teste de tuberculose, etc - que eu sabia que tinha que correr atrás, pois foram as coisas que tinha lido numa comunidade do Orkut e em blogs de moças que já moram aqui. Então o senhor agente de imigração que nos atendeu somente respondeu que eu receberia uma carta com a notificação do exame. A carta chegou exatamente um mês depois, me dando duas semanas de antecedência para o teste. Então Lars tinha pedido para a mãe dele me levar. Como ela está de repouso absoluto...
Lars pensou em pedir à cunhada, mas eu perguntei se era longe - porque se fosse seria mais complicado... Ainda não aprendi a me locomover de ônibus aqui, até porque daqui para o centro são 4 quadras, mais ou menos. E Bodø é uma cidade pequena, mas bem espalhada. Lars disse que era "mais ou menos" perto. E eu sempre digo à ele "Hello, esqueceu que sou paulistana?". Então pedi que me mostrasse, pois eu iria sozinha. Ele tutibeou, mas já estava mesmo na hora de eu começar a enfrentar situações cotidianas sozinhas. E afinal de contas, o que poderia dar errado? Já não me virei sozinha na Hungria, na República Tcheca, na Finlândia, na Alemanha , na Índia, falando apenas inglês? Então era hora de me virar aqui, de perder o medo de lidar com as pessoas - que na maioria fala inglês, mesmo que mal!
Ainda ontem, antes do Lars viajar, levamos jantar para a sogra (não sei se já mencionei, mas o apê dela é a uma quadra de nós), levei também sopa de legumes que eu tinha feito e congelado... E a sogra se espantou muito (um bom espanto) por eu ter decidido ir sozinha ao exame. Às vezes eles são superprotetores comigo...
Então lá fui eu... Logicamente, como tem que ter um senão, chovia legal... Botei minha jaquetinha de chuva, um gorro prá proteger a cabeça, e lá fui eu. São 10 minutinhos de caminhada, mas com a chuva, incomodou um tantinho, sabe? Prá ajudar, esqueci o celular em casa! Me dei conta quase lá. Pensei que se desse algo errado, não tinha nem como ligar pra Sylvia (concunhada)...
Cheguei lá já soltando o norueguês: "Bom dia, onde fica o setor de vacinação ?" , e com toda esta cara gringa, a moça já largou um superrápidonorueguêsexpresso pro meu lado. Segundos com olhos arregalados (eu acho), e respeirei e pensei um bocadinho, e respondi que eu não falava norueguês muito bem. Queria saber por que cargas d´água dá este pânico na hora de falar, sendo que eu sei falar o mínimo! Me sinto uma criança! Mas tudo bem, a mocinha me pediu pra esperar (eu estava adiantada).
Então depois de um tempo, entrou um rapaz alto, negro, bonitão, e logo atrás dele uma mulher usando o hijab, mas daqueles mais longos... Me causou um certo impacto a cena. O marido falava norueguês bem, pude ouvir. E a esposa ficou ali, parada, muda, e ainda por cima olhando prá mim! Não queria olhar muito pra que ela não achasse que eu tava encarando, sei lá... E não é que eu nunca tenha visto uma mulher de véu, mas realmente não estou acostumada com esta imagem. E no fim de semana tinha visto um documentário sobre 4 mulheres que tem um programa numa tv a cabo árabe,
o Kalam Nawaem da MBC. Uma delas é palestina, a outra libanesa, uma saudita e outra egípcia. Elas falam de tabus (pro mundo árabe) como masturbação, homossexualismo, direitos da mulher, etc. Fiquei com isso na cabeça... Bom, o post é sobre o exame de tuberculose...
Então a médica me chamou... Muito simpática. Minha segunda visita ao médico, e ainda não vi nenhum usar avental! Tô acostumada a ver médicos nos seus consultórios (até nos navios) de avental... Então começou a conversa... Você prefere que eu fale inglês ou norueguês, ela perguntou em norueguês, e eu, querendo fazer piada, quebrar o gelo, disse que em inglês, pois em norueguês, nós ficaríamos alí até amanhã... Mas ela não riu! Então perguntou se eu sabia porque estava ali. Eu disse que sim. Ela perguntou se eu já havia sido vacinada contra tuberculose, disse que sim, no Brasil somos vacinados quando pequenos. Ela pediu para eu mostar a cicatriz, e comentou , ao vê-la, que era tão grande! Enfim, enquanto ela preparava a agulha,
small talk... Ela começou dizendo que o teste era de praxe para todos os imigrantes recém-chegados, para tentar conter a propagação da doença. Contei a ela que a tuberculose estava erradicada no Brasil, até ano passado, quando votaram a parecer vários casos. Então (tava demorando) ela soltou um "Aqui na Noruega também, mas os casos registrados aqui foram em imigrantes da Somália ou Paquistão... Os noruegueses que contraíram a doença era velhinhos...". Tava demorando, quis dizer, o comentário com uma pontinha de intolerância... Mas depois ela ainda disse "Aqui fazemos este teste nas criaças por volta dos 13 anos, pois é com esta idade que vacinamos com BCG. Antes vacinávamos todos, agora já não... Acho que sai mais barato fazer este teste doque vacinar a todos...". Opa, peralá, coméquié que eu não ouvi direito? Não tenho nenhuma informação a rspeito do assunto, mas as campanhas de vacinação no Brasil não são bem sucedidas? Quando eu morava lá naquele fim-de-mundo de meu Deus, no Pantanalzão, vinha o povo da Secretaria de Saúde vacinar criança, adulto (rubéola, tétano), e até bicho? Nossos gatos escaparam e os agentes de saúde até deixaram duas vacinas conosco pra pegar os gatos mais tarde (foram necessárias 5 pessoas, um pra cada pata e um pra cabeça pra conseguir realizar a tarefa!)? Uai, se aqui é o primeiro mundo, cadê??? E depois são os somalianos que trazem a doença?
Não tô criticando não, mas houve uma dose de espantamento... Enfim...
Daí ela me pediu pra esticar bracinho, e lá veio agulhinha. Como ela explicou antes, fiquei preparada, mas tenho HOOOORRRROOOOOORRRRRR de agulha, não olho mesmo! Quando tomei vacina pra febre amarela, olhei prá agulha e desmaiei! Doei sangue uma vez, e quase desmaiei também... Então ela injetou um troço no braço que doeu feito picada de marimbondo - quem levou, sabe! A médica disse que tinha acabado, e olhei meu braço, ficou uma bolinha inchada e esbranquiçada. Coçou um tiquinho. Ela disse pra não coçar e não achatar a bolinha. Quinta-feira tenho que voltar pra fazer o controle, ou seja, ela vai medir inchaço e vermelhidão, e se achar necessário, me encaminha ao especialista pra fazer uma radiografia do tórax. A bolinha sumiu, não tá coçando e nem quase pode ser percebida, agora. Mas ela disse que terei uma reação, por causa da vacina.
Então, ela me dispensou, disse até quinta, e foi isso! Na volta pra casa, chovia mais, masainsa resolvi se mais corajosa e parei na vendinha Joker da esquina pra comprar umas cositas... Primeira comprita sem Lars! Comprei framboesas, chocolate e iogurte, passei no caixa, o homem falou comigo, eu acenei com a cabeça, estendi dinheiro, recebi o troco, e no final "Takk skal du ha", o muito obrigado de praxe... E saí... E NÃO DOEU NADA! Sei que parece pouco, mas foi bastante pra mim. Fiquei mais corajosa... Agora não é só cumprimentar vizinho durante as caminhadas, já posso fazer mais coisas....
Putz, tenho mais um montão de bobagem pra falar, mas fica pra depois... Tenho afazeres domésticos pra cuidar!