sábado, outubro 30, 1999

Eu no Caribe...

Serei breve, pois tenho apenas 15 minutos para escrever este post.

Antes de chegar aqui no navio, havia pintado um inferno na minha cabeça, para me proteger. Ou seja, esperar o pior para não ter muita decepçãp depois. Quando cheguei aqui, vi que era tudo bem melhor. Lógico que no dia que cheguei já me fizeram trabalhar, mas esta é a dura realidade do navio. Minha companheira de quarto é filipina e trabalha comigo na cozinha. Boazinha a quietinha, só dorme.

No navio tem gente de tudo que é tipo. Na cozinha, dos piores. Muitos indianos, filipinos, e o resto jamaicano, dominicano, alguns latinos. Os garçons, com quem também tenho contato, são na maioria do leste europeu, indianos... Indiano é o que mais tem, tudo gente boa.

Trabalho no setor de saladas (PANTRY), que não é exatamente o que eu queria, mas já que estou aqui... Comecei bem, elesachamque sou rápida, e tem me dado a maior força. No meusetor, além da Agnes - a room mate - só tem indiano. Fora do meu setor, levo cantada o dia inteiro. Na cozinha só tem eu e a Agnes de mulher, e no deck 9, no buffet, tem uma jamaicana chamada Karen. E como eu sou carne nova E brasileira (a única no navio inteiro), aguenta... Já ouvi de tudo!

O bom de trabalhar numa Cia. americana é que eles dão proteção. Assédio sexual dá demissão na hora, basta você reclamar. Quando os caras passamdos limites com piadinhas ou algo assim, você diz " STOP!" e eles já somem. A sub-chefe é mulher (Chef Seidi), sueca, e nos damos muito bem. No próximo porto o Chef Executivo, um austríaco gordão, Michael, vai de férias, então Seidi assume.

O inlgês é um problema, poiscada nacionalidade tem um sotaque diferente - sul-africanos, australianos, ingleses, jamaicanos, indianos, os filipinos, os do leste europeu... Tem hora que dá nervoso.

Como já disse, a vida é muito dura, mas tem suas compensações. Tem prêmios e ações motivadoras o tempo todo. Na cabine tem televisão, vídeo-cassete e geladeira. Ontem era dia de pagamento e já recebi em cash por três dias de serviço (são pagos a cada duas semanas, mas como acabei dechegar...).

Ainda não fiquei enjoada e o navio saiu de Boston, e ficamos três dias no mar. É gostoso o balancinho para dormir a noite. E a última notícia, este navio tem 14 itinerários diferentes. Vamos fazer o Caribe, depois Europa, Canada e no ano que vem, Brasil....

Ultima curiosidade, pois ainda tenho três minutos... O navio é "ecológico", ou seja, nada é jogado no mar, a água é tratada antes de ser jogada, e o lixo ´que não pode ser incinerado a bordo (nem tão ecológico) é armazenado e depois desembarcado, com destino a reciclagem... Fiquei feliz com isso.

Quando tiver mais tempo contarei como foi o embarque e os primeiros dias de serviço...

sexta-feira, outubro 22, 1999

Uns dias em Santiago e Boston...

Nota - este post foi escrito postumamente, em etapas... É sobre os dias antes de eu embarcar.

Cheguei ao Chile...

O vôo da vinda foi legal, e a visão das cordilheiras dos Andes sao demais. Cheguei e fui ao hotel que fica ha 6 quadras do escritorio onde eu precisava ir, em um bairro legal chamado Providência. Liguei para o Sr. Tulio e ele ja me pediu para ir ate la naquele dia mesmo. De la ja saímos para pagar as taxas e tirar fotos para o visto americano de tripulante (C1/D). La no escritorio fiz amizade com pessoas que, como eu, embarcariam nos próximos dias - quase sempre peruanos e chilenos. E também me lembrei de perguntar quais seriam meus cargos e salário. Ele me disse que eu ia trabalhar na confeitaria (Oba!!!) e o salário por volta de 700 dólares, como ele já havia informado no Brasil. Na volta, ja no fim do dia, passei num supermercado, comprei comida e jantei no quarto. Banho e cama.

No dia seguinte, era a vez dosa exames médicos. Conheci uma peruana que fez os exames,e descobriu que tinha vermes, então teve que ficar aqui no Chile se tratando ate que o exame desse negativo, coitada... Fiz os exames de sangue, RX e parasitologico, e fiquei rezando... Enquanto aguardava os resultados, sai na rua e vi um morro. Andei ate ele e sem querer cheguei ao Parque Metropolitano de Santiago. O morro de + ou - 600 m de altitude é um parque. Peguei um funicular e cheguei no zoo. Fiquei um tempão olhando as onças que só vi de longe no Pantanal, mas nosso coração se parte. Passei a manhã por ali. Depois subi com o funicular de novo, e cheguei até uma estátua da virgem (Santiago tem o seu Redentor, mas é a Virgen de Concepción). Lá do topo se vê a cidade inteira com os Andes ao redor. Se não fosse tão poluído como SP, seria mais indo ainda. Da virgem cheguei a um teleférico, onde há um restaurante. Me sentei de frente para as montanhas - só se vê o cume nevado por cima da nuvem de poluição), e tomei um pisco sour. Acho que oschilenos e peruanos sabem prepará-los corretamente. Nós, brasileiros, nunca lhe demos a devida atenção.
Almocei, andei de teleférico - na volta parei no Jardim Botânico e Museu de Artesanato andino. Desci o morro , fui ao médico, e apenas o RX estava pronto. Voltei ao escritório do Sr. Tulio, e conheci dois peruanos. No dia seguinte eu deveria regressar e encontrá-los, para irmos juntos a Valparaíso, na Royal School e num outro médico que validaria nossos exames. E neste momento então tive que regressar ao laboratório onde tinha ido de manhã, para finalmente pegar o resto dos resultados. Fui de metro e a pé. Na volta, comprei comida no super de novo e jantei no quarto.

Nos dias seguintes - prá encurtar - tomamos um ônibus até Valparaíso, uma cidade cheia de morros muito altos que acabam no mar. É uma cidade tipicamente portuaria. Fomos a tal Royal School assistir um video sobre a vida a bordo dos navios. Depois fomos andando até um hospital feio, escuro, e cheio de marinheiros gregos a la Popeye encarando a gente. Pasamos por um médico bem assustador e saímos de lá rapidão, pegamos o ônibus de volta até Santiago, e aí ja era noite. No dia seguinte fui a Embaixada americana tirar o visto, que saiu na hora. E então fui resolver minha passagem até Miami e Boston com o Sr Tulio. Ele queria que eu comprasse uma passagem de LAB (Linhas Aéreas Bolivianas). Disse a ele que preferia pagar a passagem eu mesma,e comprei - por telefone - uma passagem da United "direto" pra Boston. Na verdade fiz conexão em Miami e Washington, DC. Em Boston ficaria hospedada na casa do meu amigo Márcio, que mora lá.

Foram duas noites curtinhas em Boston. Foi legal passá-los com o Márcio, amigão de colégio. Eu inclusive já havia ficado lá com ele um ano antes, quando fui de férias pro Canadá e EUA. Só que ele agora morava num lugar diferente.

O próximo post será sobre o dia em que finalmente embarquei...

sábado, outubro 16, 1999

Vou entrar de gaiata num navio!

Este é o primeiro post deste blog, que vai contar minhas futuras aventuras trabalhando a bordo de um navio de cruzeiros da Royal Caribbean Cruises.

Pra quem não sabe, depois que terminei o curso de Cozinheiro Chefe Internacional (CCI) do Senac, em 97, fiquei um tempo fazendo bicos, até que no início de janeiro do ano passado me mudei pro Pantanal, pra trabalhar num hotel-fazenda ecológico. Isto dava um blog a parte, então pulamos pro fato de que um ano depois, achando que tinha abandonado minha carreira de chef, voltei pra SP.

Um belo Domingo lendo o caderno de empregos do Estadão, dei de cara com um anúncio em inglês, que chamava para um recrutamento para a Royal Caribbean. Me lembro que desde o tempo da faculdade de hotelaria eu lia a Revista Viagem & Turismo e sonhava, ao ver as propagandas da Royal. Então pensei, "Por que não? Não custa nada tentar..."E lá fui eu, com currículo debaixo do braço e a cara de pau... A entrevista era bem num feriadão em SP, a cidade estava bem vazia. Ao entrar no hotel, me encaminharam ao Centro de Convenções, e para minha surpresa não havia muita gente esperando. Então um senhor veio em minha direção e tentou falar portugês, mas era de lingua hispânica. Leu meu CV e disse que eu não tinha muita experiência para a vaga aplicada - queria trabalhar na cozinha... Mas me mandou esperar mesmo assim.

Depois entrei numa sala, e o homem que faria a entrevista estava sentado. Começou falando inglês, e assim foi até o fim. Eu achei que tinha ido bem, pois havia um grande entrosamento na conversa, e eu estava muito a vontade. Acho que o fato de meu inglês ser muito bom ajudou... Mas na verdade eu saí de lá sem muita expectativa, pois o tal hispano não tinha ido com a minha cara.

Duas semanas depois ele me ligou e se identificou. Era o hispano. Perguntou se eu poderia comparecer a um outro hotel naquela semana, e la fui eu, muito curiosa. Quando cheguei, haviam umas 30 peesoas esperando. Então o tal hispano chegou, nos levou pra dentro de uma sala e perguntou se sabíamos porque estávamos ali. E respondeu ele mesmo que nós todos tínhamos passado na pré-seleção. A partir dali ele nos daria instruções para que pudessemos tomar nossa decisão.

Então, ele era um agente de contratação da Royal Caribbean, o único na Américado Sul, e seu escritório ficava no Chile. Os aprovados que quisessem dar continuidade ao processo de contratação deveriam viajar ao Chile, onde deveriam ficar por uma semana aproximadamente, por conta própria. Pagar todos os exames médicos necessários e despesa com visto, além da estadia e passagem aérea, além da passagem aérea até o porto de embarque.

Depois da apresentação, metade da galera já broxou achando que deveria ser algum tipo de tramoia, exploração, sei lá. Eu pensei muito no assunto e fiquei muito ansiosa, mas resolvi arriscar depois de conversar muito com minha família. Meus pais toparam arcar com as despesas.
Duas semanas depois desta última entrevista, o chileno, Sr Tulio, telefonou e perguntou se eu tinha me decidido. Disse que sim, que toparia, e ele disse que eu deveria estar no Chile dentro de uns 10 dias. Foi uma Sra. correria, médico, passagem ao Chile, festinha de despedida, etc.

Por sorte uma ex-professora da faculdade tinha uma boa posição numa cadeia de hotéis na América Latina, me conseguiu um descontasso na hospedagem num hotel de boa categoria e num bairro bom em Santiago.

E assim me preparei para partir, sem saber o que me agurdava do outro lado, com a cara e a coragem. A única certeza que tinha era que, se eu estivesse me metendo numa fria, voltaria rapidinho.

Este blog narra daqui por diante todo o épico...