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domingo, outubro 03, 2010

Outono & Bondensmarked

Pra começo de conversa, o Outono desse ano em nada se compara ao do ano passado, em que choveu, choveu, choveu. Assim como no verão. Os dias tem sido azuis, céu quase sem nuvem, e temperatura oscilando entre 4 ou 5 graus pela manhã cedinho e à noite, e 10 e 13 graus nos horários de sol. Nada mau! E por isso, é possível esse ano observar a mudança de cores da vegetação. As árvores estão começando a amarelar e derrubar as folhas. E a prefeitura plantou uns matinhos vermelhos nos canteiros da cidade, fica tudo muito lindo...

O outono também é a época da fartura aqui no Ártico (acho que no norte como um todo). As frutas e verduras amadureceram durante o verão, agora é hora da colheita, é fácil achar cebolas, cenouras, beterrabas, batatas mais fresquinhos. Frutinhas do bosque (groselhas pretas e vermelhas, amoras selvagens, framboesas selvagens, morangos cultivados, framboesas polares e rognebær), além de outras frutas e coisas tipo ruibarbo foram transformados em tortas, geléias e compotas, além de sucos concentrados, e são vendidos nessas ocasiões. Ovelhas, carneiros, e até vaquinhas, e também as renas, passaram o verão engorando nos pastos, e agora é a época do abate. As carnes do outono são mais saborosas, um pecado. Comprei kgs de cordeiro outro dia. Assado, grelhado, guisado, de todo jeito fica gostoso. Além disso, aparecem vários salames e carnes curadas de diferentes tipos. Quando chegar o inverno, os animais são recolhidos, ficam confinados nos celeiros, protegidos do frio, comendo ração e a grama que foi cortada no verão e armazenada em forma de "ovos de trator".


Ontem levantamos, vimos o sol e dia lindo, chequei o calendário e vi que tinha Bondensmarked na Torget (ou feira de fazendeiros na praça)... Lá fomos nós. Estava pequena como sempre aqui em Bodø e, ao contrario de Tromsø, não tinha nada nada de vegetais. Minto. Comprei um maço de couve, mas é uma couve diferente, chama-se grønnkål por aqui. Mas além dela euns maços de ervas frescas, era só. O resto era mel orgânico daqui da região de Sørfold (onde fica o nosso chalézinho), bolos e lefses (uma espécie de panquecona, recheada com várias coisas diferentes) feitos em fazenda, queijos também artesanais, e a supresa desse ano, uma barraquinha da fazenda que faz tudo orgânico e ficaem Kjerringøy. Além de vários tipos de queijos e derivados do leite orgânicos, eles também vendem ovos orgânicos (3o coroas por dúzia, o que é mais barato que compar meia-dúzia de ovos orgânicos no supermercado) e carne de vitela orgânica, já limpa e cortada pra guisados ou bifes, por 500 coroas por 3 kg. Muito barato. A gente deixou o telefone com o pessoal. Eles ligam e avisam quando vem pra cidade, a gente faz o pedido e eles trazem em casa! Pode? Pra terminar o festival de delícias, eles fazem pães também orgânicos, assados num forno a lenha antigo que eles tem na fazenda... Compramos uma focaccia divina, três tipos de queijo de cabra, um pote de mel, a couve...

Brunost, betaost, gradost, lofastost, e mais uns de nomes complicados. Do jeito que eu nem gosto de queijo, afemaria, consegui comprar só 3...



Aqui a barraquinha da fazenda de Kjerringøy. O cartaz pra encomenda de vitela...

Então, sogra ligou e avisou Lars que havia esse fim de semana uma feira muito maior, fora da cidade. Já que o dia estava mesmo lindo e a feirinha da Torget tava xoxinha, fomos dar uma espiada na outra. Mas já na chegada percebemos que iríamos nos arrepender, dada a quantidade de carros parados no estacionamento do local. Acertamos... Não era uma ferinha nem de fazendeiros, nem especificamente de produtos típicos. Porque tinham umas 3 ou 4 barraquinhas peruanas, vendendo produtos de lã de alpaca (WTF???, tão longe!), uma barraca vendendo artigos de couro finlandês que era tanto de couro quanto tênis Nike do Paraguai, um sujeito vendendo artigos usados do Exército, enfim, uma misturança... Além disso, havia um palco com uma banda péssima urrando no microfone. Achamos então a barraca que interessava: Spekemat, ou embutidos e curados, Disneylândia do Salame, se assim preferir. Tinha salames e embutidos de alce, de rena, de porco e vaca, de veado (norueguês, red deer, uma espécie que vive mais ao sul, na região de Trøndelag), e pra nosso total choque, salame de urso...

Uma anta esticou a pata bem na hora da foto... salame...

A carne de urso curtida com whisky single malt escocês Talisker... 2280 coroas por kilo (cerca de R$760,00). O cara nem tava dando amostra, rsrsrs.

Quem come urso, porra? Nem por questão ecológica nem nada, porque se a caça está aberta e o povo mata, que coma, ao menos respeita aquela morte, digamos assim. Mas nunca, jamais ouvi falar dessa...

Depois de comprar mais carne de alce curtida (não sei se já comentei, mas nosso maior projeto pro chalé é fazer um defumador e um forno à lenha...), pra Lars poder "aprender" como faz, pra poder fazer com os alces que ele caça, carne de rena curtida e salame de veado (chama-se hjortepølse e também está à venda num supermercado), fomos olhar uma barraca com itens alimentícios típicos de Norland. Truta fermentada (eca, eca, eca, não deu...), pães e doces de leite, uns queijinhos, e, pra minha surpresa, café! Pensei com meus botões, café típico de Norland??? Nesse mesmo momento, um casal hablando español... Ele latino-americano com aquela carinha de índio andino, ela, européia, falando espanhol com sotaque...

Ele: -Mira, café de Brasil, Nicaragua, Kenia y Colômbia...
Ela: - Si, pero está quemado. No saben hacerlo... Sabe amargo...
Ele: -Son raros estes noruegos... Un pensamiento muy raro...
Os dois: - Hihihihihihi!
E eu: -Hein????
E Lars: -What?
Contei pro Lars, e ele: -Ahn???? Why?

Estranho mesmo... Não compramos nada e fomos já embora dali... Mas eu fiquei muito satisfeita com a compra anterior, na Torget. Cheguei em casa e fiz couve refogada com alho, puré de abóbora, arroz e farofa de ovo pra comer com costeletas de porco. Um sabor abrasileirado num dia de sol no outono ártico.




Só em dias de céu bem limpo se consegue ver este glaciar a partir da cidade. Depois coloco o nome, ele é pequeno...

sábado, maio 15, 2010

Alt for Norge, ou crash course em como se tornar norueguês mais rápido!

Porque a Renata se interessou, eu fui fuçar no Youtube pra ver se tinha algum vídeo do Alt for Norge, a série sobre americanos descententes de imigrantes noruegueses, competindo pra conquistar sua "norueguesidade" e o direito de conhecer sua longínqua família noruga... A série é produzida pela TV Norge, e pra assistir via internet é preciso pagar. Mas uma alma boa disponibilizou trechos, ainda por cima legendados em inglês. É que durante o programa, os americans obviamente falam inglês, mas as explicações e as auto-tirações de sarro dos norugas são em noruga, claro.

Então, se esse é um blog que conta da minha vida na Noruega, e deve também contar algumas curiosidades a respeito da cultura desse povo tão peculiar, nada melhor que me utilizar de uma ferramenta já prontinha pra isso...

Abaixo alguns trechos interessantes, e que fazem parte do cotidiano norueguês... Esse vídeo fala do 17 de Maio... Quando a norugada toma 14 milhões de litros de refrigerante (são só 4,5 milhões de habitantes, gentem!) e devoram nada menos que 16 milhões de pølse med brød (salsicha com pão, vulgo cachorro-quente). O episódio explica também o Russ, sobre o qual eu até ia postar, mas acabei esquecendo... O Russ é uma espécie de rito de passagem para os jovens noruegueses, que estão prestes a terminar o equivalente ao colegial e partir então pra vida adulta... Aconteceu entre 1 e 17 de maio. Você começa a ver adolescentes vestidos com roupas vermelhas ou azuis ou pretas, todas decoradas com bandeiras e outras porcarias mais. Durante essa semana, esses jovens tornam-se pequenos delinquentes, enchendo o caneco por aí, correndo com seus carros também decorados com fita crepe, ficando pelas ruas até tarde, eventualmente bimbando com tudo e todos... É uma tradição, é normal, é aceito, faz parte da cultura deles. No vídeo, os aspirantes a norugas vão participar de um Russ - mesmo sendo muito velhos pra isso! E, numa coisa eles tem muita razão... Em qual país do mundo você veria dois ônibus lotados de adolescentes prestes a sair azucrinando, tendo esse comportamento animal até legitimado, estacionando no jardim do palácio real? Só na Noruega mesmo!



Deu pra sacar a merda que vira esse país em época de Russ? Porque eu me sinto tão chocada com isso quanto os americanos ficaram... Se eu tivesse filhos, não sei como reagiria a isso. Mas tudo bem, faz parte!

Nesse outro trecho, uma especialidade norueguesa, o rømmegrøt, sobre o qual falei ano passado. Só não mencionei que em algumas pessoas ele causa repulsa, pois o sabor é mesmo forte... Veja como os gringos se saíram... A tia que diz que adora é a única do grupo que mantém suas raízes norueguesas, e sabia o que era. Os outros se chocaram ao descobrir que aquilo era o jantar! E a cantora de ópera Maia não consegue dizer rømmegrøt (mais ou menos rêmegrêt), fica repetindo cromegot...



E aqui, um pouco do que nós, pobres imigrantes, somos obrigados a passar por... Norkkurs, curso de norueguês... O detalhe é que o R do idioma norueguês é latino, digamos assim. Ou ele soa R como no português, ou como no alemão, em algumas regiões da Noruega. Os americanos tem uma dificuldade imensa em pronunciar o R assim, já que os Rs deles são arrastados como os dos piracicabanos, por exemplo...



E então, eu já havia prometido falar sobre isso no post "Você está na Noruega há muito tempo se...". Nessa parte, os gringos tem que preparar matpakke, tradução literal, pacote de comida, ou a boa e velha lancheira... As crianças levam pra escola, os adultos levam o almoço pro trabalho, a família toda leva quando vai pescar ou esquiar ou passear na montanhas. Lars não vai trabalhar sem a dele. Existem produtos a venda nos supermercados em tamanho especial pra matpakke... Elaconsiste em geral do famigerado smørbrød, fatias de pão com manteiga e o que mais lhe convier. Na Noruega (e na Dinamarca, não sei na Suécia) não se come sanduíche - os sanduíches são todos americanizados. A versão local de sanduíche é um sanduíche aberto... Frios, queijo, pepino, pickles, caviar de bacalhau, o Nugatti, versão pobre de Nutella, e o tradicional salmão defumado com ovos mexidos são algumas variações. A maioria das lancheiras terá isso, mais uma fruta ou uma saladinha... Esse trecho está sem legenda em inglês, mas a narradora explica o que eu já expliquei... Eles tem à disposição os itens que em geral são levados como matpakke, e eles não tem idéia do que seja... Misturam coisas que não sabem o que são, doce X salgado...





Por último, outra iguaria norueguesa, essa graças à Nossa Senhora dos Imigrantes Brasileiros não é típíca daqui do Norte, mas do Sul e interior do país... Smalahove, ou cabeça de ovelha. Luciana já havia postado sobre isso há MUITO tempo... Enfim, agradeço pelo fato de esse prato não figurar entre os pratos típicos do norte da Noruega, assim não preciso enfrentar isso numa época de Natal qualquer. Não que eu me recusasse a comer. Mas é preciso calma nessa hora, e sem ter um monte de gente à sua volta, esperando sua reação. Sou a favor de experimentar de tudo. Mas que essa não seria fácil, isso não seria. Cabeça de peixe - especialmente bacalhau - isso sim é típico daqui da minha região. Ainda não provei... Veja os americanos cantando o hino norueguês pra criar coragem!



Queria muito que já houvesse vídeos do quinto episódio, quando eles vão passar o típico fim de semana no chalé... Mas quando subirem trechos, eu posto.

terça-feira, setembro 22, 2009

Sushi e sashimi de baleia

Pois é, o título é pra chamar a atenção mesmo.... No post anterior fiquei devendo a descrição de nosso jantar no sábado. Como havia dito, aqui em Bodø não há tantas opções de restaurantes, então ficamos entre o Bjørk, novo, - pra onde inclusive eu havia mandado currículo - um tailandês muito simpático, e o Bryggeri Kaia, onde fiz uma entrevista... Este último tem como especialidade pratos de peixe seco (bacalhau e outros). Depois de olhar os cardápios (e preços) pelanet, optamos pelo Bjørk. Muita gente na cidade tem falado bem dele. Mas o detalhe que fez toda a diferença foi que no Bjørk ele fazem sushi. Sou doida por sushi desde pequena.

Me arrumei toda, Lars também. Fomos de taxi, pois tava garoando forte (sair sábado na garoa pra comer comida japonesa = programa de paulistano! Mas não!). Chegando lá, o restaurante tava lotado. Quase não tinham mesa pra nós. Mas cavaram um buraquinho, e sentamos numa mesa espremidíssima. Tão espremida que eles tem painéis de madeira pra separar os comensais! MAs mesmo assim bem aconchegante.

Lars pediu vinho branco, eu fui de sakê (que, heresia, não estava gelado!). Pedimos uma degustação de sushi, e fomos saudados com uma bela salada morna de frutos do mar de entrada. E assim entramos no clima, demos aquela excitada no paladar, esperando a próxima surpresa. Então um chefinho bem mocinho veio com dois pratinhos. Ele me serviu meu pratinho pelo outro lado da mesa, pelas costas do Lars, por causa da mesa apertada. E ao servir, disse "@#$*&! med teriaki saus". Respondi obrigado, dei uma olhadinha naquela carninha vermelha levemente selada por fora, crua por dentro, com um molho teriaki cheirosíssimo. Por alguma razão, achei que fosse rena. Após a primeira engolida, exclamei "Que delícia!" E vi Lars do outro lado rindo, e pedindo desculpas. Porque? "É carne de baleia! Desculpe!" Disse que ele não precisava se desculpar, afinal, não é culpa dele se eu sou uma esganada que vai enfiando as coisas na boca sem perguntar! E o pior, eu disse à ele, é que tá muito bom e a cada mastigada eu me sinto mais culpada por corroborar com uma situação da qual discordo - e muito.

Mas quando aconteceu da primeira vez, e escrevi um post sobre a culpa que senti, recebi dois comentários - da Tietta e da minha irmã - que me apaziguaram o coração. E antes que eu me esqueça, se você, leitor, me condena pelo fato, mas vai ao restaurante japonês e come atum, saiba que você é tão culpado quanto eu!

Emfim, tirei fotos do teriaki de baleia, mas com o celular... Vai demorar pra tê-las, pois sou pré-histórica com telefones....

Após a iguaria, veio um pratão de sushi, com uns nigiri sushi de salmão, de halibut, de vieiras, de camarão e de BALEIA. E uns califórnia rolls. Não foi o melhor sushi do mundo não, mas a apresentação tava bonita. Dessa vez, deixei a baleia, completamente crua, por último, e me estrepei, pois ficou difícil de mastigar, e o sabor todo veio à tona, e não agradou. Não curti, mesmo. Me senti comendo alguma carne de caça com sabor forte, crua. Por sorte ainda tinha um califórnia pra mandar por cima, pra apagar o gosto estranho. No fim acho que foi bom, pois não vou ficar tentada a provar de novo, já que em TODOS os restaurantes da cidade e TODOS os supermercados vendem a danada.

Depois do jantar fomos tomar uns drinks no Bryggeri Kaia, e depois caminhamos de volta pra casa. Foi uma excelente noite, mesmo com aquele pequeno porém que ainda está meio que entalado na garganta. Mas o povo daqui tem o hábito de comer as bichinhas há muito tempo... É triste, mas é real. E eu agora posso ser tão recriminada (por mim mesma!) quanto.

Eita, indigestão moral...

Essa semana estou começando às 5:30 da matina todos os dias, então estarei meio afastada da net. No fim-de-semana ficarrei só, pois Lars vai tentar pegar nossos almoços de Domingo para um ano (apenas modo de dizer). Vai caçar os pobres alces. Agora ele resolveu que quer comprar uma máquina de moer carne pra fazermos nossa própria linguiça de alce... Ai,ai,ai! E ainda por cima o time de futebol que vai jogar contra o Glimt estará hospedado no hotel, e teremos de alimentar os atletas de 2 em 2 horas... Como diz minha colega Mariann, ao menos teremos uma vista bonita sábado e domingo. Será...

sábado, agosto 29, 2009

Bondens Marked

Bondens Marked é o tal mercado de produtos "caseiros", que os produtores vem vender na cidade. Tem feiras assim no país inteiro, inclusive uma vez li anúncio na revista Mat og Vin (Comida e Vinho). Nossa compra foi excelente. Sogra comprou apenas um queijinho. Já eu...




Não é barato não, mas comprei esse queijo de cabra fedidésimo à lá francesa - a geladeira está empestelhada, mesmo eu tendo empacotado o queijo 500 mil vezes!, geléia de rosa e de folhas de pinheiro, mel dessa flor roxa que tem foto nesse post (última foto), e lefse caseiro com queijo marron. Os vegetais estavam maravilhosos, mas carésimos. 5 coroas por UMA beterraba! Pensei que com 5 coroas se compra 1kg de beterraba no Brasa...

Além dessas, fiz outras compritchas com a sogra. Comprei umas forminhas que vão do micro ao forno pra fazer sobremesas e tortinhas, e já usei logo, e vou postar no Caderninho depois. Comprei um belíssimo prato de vidro pra dar de presente pra minha cunhada, para agradecê-la por tudo o que fez por nós no nosso casamento - estávamos atrasados com isso. E finalmente comprei uma nova luminária pra sala de jantar. No verão tava claro na hora do almojantar, agora vai começar a escurecer! O engraçado aqui é que quando começam as liquidações, é em tudo. Roupas, sapatos, artigos de decoração, móveis, até churrasqueiras e redes... Então é a boa hora de comprar. Depois das compras fui almojantar com sogra, cunhada e sobrinhos do Lars. Comemos sei frito, a sobremesa que preparei nas forminhas novas, e a cunhada adorou o prato de vidro... E assim se passou grande parte do dia em que eu estou de folga, mas sozinha!

***
Mudando de assunto, minha fadinha filipina veio me contar que segunda, 31 de agosto, é o dia para inscrição na Voksenopplæring (escola para adultos) daqui de Bodø. É lá que todo estrangeiro é obrigado a cursar 300 horas de norueguês para depois fazer um tipo de Toefl do norueguês chamado Norskprøve, para então poder aplicar para a residência permanente ou ainda cidadania norueguesa. Bom, voltando à fadinha, perguntei à ela se a irmã dela iria se inscrever, e Roselle disse que estava de folga e iria levar a irmã. Eu disse que também estava de folga, e perguntei se ela se incomodaria de me encontrar em algum lugar pra irmos juntas. Sem problema, trocamos telefone e tudo. Algumas horas mais tarde, ela me mandou uma mensagem de texto, dizendo que a inscrição começa às 6 da tarde, e que me encontra lá (porque, só pra variar, a escola é a 5 quadras de casa!) Ah, e disse pra levar o passaporte. Eu ainda acho que não é tão simples assim, pois o povo aqui da cidade é meio cri-cri com burrocracia, e considerando que ainda estou no meu visto de noivado, pois o de casada ainda não saiu, pode ser que eu dê com os burros n'água. Então, segunda pela manhã, vou à UDI (a imigração) levar a Certidão de Casamento definitiva e cópia do contrato de trabalho, pra ver se ajuda. Faz um mês que pusemos o requerimento, então tô precisando dar uma acelarada nas coisas.

Por outro lado, fico aqui pensando que não entendo esse desespero com a tal da escola. Nos fóruns e comunidades do Orkut, a mulherada (porque há apenas um ou outro homem que se envolve nas discussões) - que eu passei a acompanhar cada vez com menos frequência - já logo avisa pras recém-chegadas ou pras que ainda nem chegaram, que sem falar a língua é impossível adaptar-se - ou conseguir trabalho. Por vários motivos eu entendo e concordo, mas por outros acho que fazem mesmo tempestade em copo d'água. Eu e mais uma ou duas somos a prova viva de que nada é impossível. Claro que estudar a língua é fundamental, mas tem várias pessoas que sobrevivem sem precisar falar noruga no dia-a-dia. Depende da qualificação, do tipo de emprego, do setor em que atua, etc. Pode ser difícil, mas não é impossível não. Também depende muito do fator "a que se sujeita uma pessoa". Quem se sujeita a trabalhos mais básicos, digamos assim, talvez consiga se colocar mais rapidamente - eu ACHO.

A minha sangria desatada com a escola era pra poder arrumar um trabalho logo, pra poder contribuir com meu marido nas despesas, ter dinheiro pra poder viajar, ir pro Brasil quantas vezes sejam necessárias, comprar o que eu tiver vontade... Achamos que fosse levar mais tempo, mas como o trabalho veio, a escola perdeu um pouco a importância no presente momento. Primeiro, dá pra sobreviver com o norueguês parco que eu já falo, e que melhora a cada dia, por osmose mesmo. Segundo, eu não tenho A MENOR intenção de voltar a estudar. Admiro muito os acadêmicos - quem dera eu levasse jeito pra coisa. Mas a essa altura da vida, depois de 25 anos na escola, uma faculdade, mesmo que de curta duração, já feita, e uma especialização, digamos assim, CHEGA! Mestrado em Enologia? Doutorado em formas pós-modernas de administração de custos em cozinhas industriais ou não? Correr atrás de professor e orientador, estudar pra prova, a esta altura da vida? Só se eu talvez pudesse pesquisar os efeitos negativos do aquecimento global nos vinhedos da Borgonha, e tenho certeza que já deve ter um Zé estudando isso, lutando pra ser financiado, cheio de lobistas de Bordeaux com algum argumento contra o estudo, etc, etc,etc. Que papo chato, né? Prefiro é ler o trabalho do Zé quando ele conseguir ser publicado!

Não consigo entender porque alguns expatriados acham que melhorar de vida é ter empregão, cargão e carrão! Milhares deixam o Brasil todos os anos em busca de uma vida melhor. Aqui, no caso da Noruega, muitos acreditam que precisam ter um emprego igual ou melhor do que tinham no Brasil, não enxergando o que eu enxergo (talvez a minha visão da coisa seja muito romantizada mesmo) como vida melhor. Porque, em primeiro lugar, eu procuro nunca me esquecer que estou na posição em que me encontro hoje por causa das escolhas que fiz na vida.

Sem contar o que deixei pra trás nos navios, pois como já expliquei aquela vida é irreal... Saí de uma cidade féladapooota e ingrata como São Paulo. Com poucas possibilidades de retornar ao mercado de trabalho na posição pra qual tenho qualificação hoje - gerente de Alimentos & Bebidas, ou de restaurantes, empresas de caterig, etc. Alimentos e Bebidas em grandes quantidades, ou com muita qualidade, se vocês me entendem. Salários tão inferiores à realidade que as pessoas ainda preferem se aventurar no mar, por exemplo, pra mudar de vida (e começa assim o ciclo!). Caos no trânsito, falta de segurança, violência, excesso de ruído, excesso de poluição, sistema de saúde praticamente inexistente se você não tiver acesso à rede particular, que te quebrará um dia se o seguro não cobrir tal cirurgia. Pensão ridícula se você não puder pagar um plano privado. Impostos altos sem retorno. Políticos cretinos (mas isso existe no planeta inteiro, seguramente!)... Quer mais?

Daí conheço o amor da minha vida - não sei se já disse isso, mas quanto Lars e eu apenas nos paquerávamos, à distância, uma noite ele me olhou bem nos olhos, e eu disse à minha roomie Kristine (da Bulgária) que eu ia casar com ele! Ela rolou de rir. Então, quando casamos, era pra ela estar aqui, mas não conseguiu licença pra desembrcar... Então, conheço o amor da minha vida, e ele diz (depois que eu havia vindo pra cá de férias e conhecido o lugar) que quer vir viver na terra dele, junto comigo... Morria de medo que eu jamais aceitasse, porque a cidade é pequena e talz. Então, eu tive que sentar e refletir muito antes de concordar. Vou ser imigrante pro resto da vida. Check. Vou apanhar pra aprender a língua. Ok. Vai demorar até que eu consiga fazer parte do sistema. Ok. Vou viver ao lado da pessoa que amo. Checadíssimo, maior númeor de pontos! Vou viver numa cidade pequena onde não há congestionamento, não há transporte público muito decente porque não é necessário, e poderei ir e vir à pé ou de bicicleta. Check. Vou pagar impostos altíssimos mas terei um sistema de saúde decente que não me quebre caso fique muito doente e mesmo um pouquinho doente. Check. Poderei mandar meus filhos (se e quando tiver) pra escola sem perder o sono com o pagamento pela educação deles. Check. Vou poder me aposentar e desfrutar da vida com a dignidade merecida sem precisar contar moedas pra pagar os remédios pra pressão e coração. Check, muito check. Vou viver num país maravilhoso, frio pra cara***, mas que ainda assim é belíssimo, e a natureza é poderosa - bem o Brasil aí ganha, mas as montanhas, fjordes, florestas e o mar, ah, o mar, Check, check, check. Vou morar num apartamento que me possibilita ir à pé ao aeroporto mesmo com bagagem. Check... Alguém aí me entende? Pelo Lars, talvez até pra Zâmbia eu me mudasse... E ele ainda veio com todos os acessórios.

Então, não importa o tipo de trabalho, ou status social, ora bolas! Olha a vida que eu tenho!!! A escola de norueguês pode muito bem esperar. Já tive meu ano sabático mesmo, entre abandonar o navio e começar a trabalhar aqui foi um ano certinho. Tive tempo pra mim, redescobri a chama do meu amor pela cozinha, pude ressucitar esse bloguinho que conta, malemal, 10 anos da minha vida (quão interessante ela poderia ser, meldeus, a não ser pra mim mesma?). O grande negócio é dar tempo ao tempo. Afobação e stress, num lugar como esse, não tem espaço, nénão? Carrão? No dia em que eu tiver um carro, vai ser um Buddy. Pagar os olhos da cara de imposto? Sinceramente, não entendo o povo.

***
No mais, preparando a casa - e várias guloseimas - pra chegada da minha irmã com o marido na sexta. Que bom receber família!

segunda-feira, julho 13, 2009

Cenas de um casamento - após o casamento...

No fim de semana relaxamos pacas. No sábado, uma linda manhã, resolvemos fazer um churrasquinho. Saímos para comprar as dilícias, mas claro que, bem na hora de acender a churrasqueira, o sol sumiu. Mas a ventania deu trégua essa semana, a apesar de não ter sol, a temperatura era agradável.

Bem, foi só acender o gás da churrasqueira (sem comentários, por favor), e recebemos um telefonema da joalheria - as alianças estavam prontas! Um dia atrasadas, mas como pedimos quarta passada, deveriam ter demorado 10 dias. Então, foi a jato.

Já de alianças colocadas e estranhando muito (quero deixar claro aqui que foi o Lars quem fez questão das alianças, juro. Eu por mim teria ficado de mão-pelada - piada pantaneira, rárárá!), bem na hora de comer o churras, a sogra chegou, com os presentes, os cartões e o resto da tralha que havia ficado na casa do Anders. Aproveitamos e a convidamos pra almoçar. Ela comentou que os convidados haviam amado a pequena recepção, que havia sido kjempe koselig! *kjempe é uma expressão tipo super, e pra saber sobre koselig, veja aqui...


Após o churrasco, que acabou sendo consumido indoors, à noite resolvemos dar outra chutada de balde e celebrar. Na semana passada, quando compramos o champagne pra recepção (comprei Cordoníu espanhol - que na verdade é cava, e não champagne - por uns R$33), também compramos um champagne melhor só pra nós dois. Escolhi um Gosset Brut Rosé NV (non-vintage), que eu tava dooidaaa pra provar (acho que era um dos poucos champagnes das grandes Casas, ou Maisons, da Champagne que eu ainda não havia provado). Em SP, nas lojas da Expand, saíam pela bagatela de R$500. Aqui, estava mais barata que Piper-Heidsieck Rosé, Veuve Clicquot Rosé, ou mesmo Moët & Chandon Rosé. Pagamos menos de R$100!!! E ao abrir a garrafa, era deleite líquido... Um rosé muito discreto, com pérlage (borbulhas) persistente, extremamente delicada. Um excelente investimento - e ótima motivação pra mexer a bunda e arrumar um trampo logo, assim posso bancar meus queridos pequenos luxos da profissão - tomar muuuitooooo vinho bom!


Depois de esvaziar a garrafa, pensei em abrir ma outra, também rosé, que ganhamos de presente. Mas Lars tinha outros planos... Um Louis XIII (um conhaque feito pela Remy Martin, um dos mais caros do mundo, elaborado com elixires de mais de 120 anos de idade. A história de como eu consegui uma garrafa merece um post à parte) e um charutinho na varanda. Vale ressaltar que nesse dia eu saí de calça capri e camiseta pela primeira vez, e tava dando pra ficar na varanda de noite, temperatura muito amena...

Domingo, fiz cassoulet improvisado, e a sogra veio almoçar conosco. Trouxe as sobras do kransekake pro café! Também precisávamos saber pra quem exatamente mandar os cartões de agradecimento pelos presentes. Pros mais íntimos, e que compareceram à recepção, vou fazer uma geléia de banana com chocolate, receita pela qual eu babei quando vi no fabuloso blog da Claudia, o Sabor Saudade. Pros outros, só cartão mesmo.

E hoje fomos à UDI, pegar os formulários pro próximo visto e fazer perguntitas sobre a troca de nome e etc. Aparentemente o visto - desde que eles achem que tá tudo legitimado, e o casamento é de verdade e não tramóia, eles nem mandam a papelada para Oslo - resolve-se aqui mesmo, rápido. Ela pediu os holerits do Lars, de três meses, além da minha certidão de nascimento e a certidão de casamento, além de fotos da cerimônia, além de um breve texto sobre como nos conhecemos. E vai custar outras 1100 coroas - apesar de no Consulado do Rio, após de cobrarem R$1000 pelo visto, terem informado que eu não precisaria pagar outra vez aqui na Noruega. Enfim...

De lá, fomos comprar potes para as geléias de presente e as bananas - e como sempre, acabei comprando muito mais do que precisava. Paguei o mercado com meu cartão pela primeira vez. Já tinha recebido o cartão do banco, mas eles não haviam enviado as senhas - sim, aqui a senha é determinada pelo banco, e não pelo cliente!

As bananas estavam muito verdes, então usei o velho truque de enrolar em jornal e guardar dentro do forno, mas preciso esperar que amadureçam, pra geléia ficar mais gostosa. Enquanto isso, fui mexer com os quinhentos kilos de morangos que havíamos comprado semana passada. Fiz arroz doce (aqui chamam de ris grøt, acho que já falei dos grøt, tipos de mingau) com morango, fiz três potes de geléia de morango, e ainda fiz picolé de iogurte com framboesa. Os morangos daqui da área já estão capengando, mas as framboesas norueguesas... São gigantes! Hoje comprei aquelas forminhas de picolé pra criança. Bati meia caixa de framboesa com 200 g de iogurte desnatado sabor baunilha e umas duas colheres da geléia de morango no liquidificador. Coloquei nas forminhas de picolé, e voilá... Picolé low sugar, low fat, high flavor!!!

Nessa fotinho, a pilha de bananas para a geléia, os potes de geléia de morango, o arroz doce (que depois de frio endureceu um pouco) e as framboesas gigantes. Ah, e meu pézinho de hortelã!

domingo, julho 05, 2009

O Sol da Meia-Noite

O final de semana foi espetacular... Além de estar no paraíso, ainda pude presenciar o sol da meia-noite em Landegode. Ele chegou bem perto da linha do horizonte, mas depois ele volta a subir. O mais espetacular disso tudo são as cores e jogos de luz, pois é um por-do-sol entremamente longo!




O sol da meia-noite é um fenômeno que ocorre perto dos pólos, quando o Sol não se põe durante pelo menos 24 horas. Isso acontece porque a inclinação do eixo da Terra em relação ao plano de sua órbita faz com que o Sol incida quase perpendicularmente sobre os pólos, em posições que se alternam de seis em seis meses. A passagem para o dia ou para a noite polar acontece nos equinócios – quando a duração das horas de sol é igual em toda a Terra.

A quantidade de tempo em que o sol permance 24 horas acima da linha do horizonte depende da latitute. Quanto mais perto dos Círculos Polares, mais longas serão as horas de luz no verão. Ao norte do Círculo Polar Ártico (e ao sul do Antártico) a duração do fenômeno vai aumentando.

Em Bodø, ele acontece entre 4 de junho e 8 de julho, enquanto no Pólo Norte ele vai de 20 de março a 23 de setembro. Essa semana o sol volta a desaparecer no horizonte, o que não significa que a noite volte. Ao contrário, ainda teremos 24 de luz por algum tempo... Veja aqui as diferenças na Noruega...

Há quem diga que é um mal... À saúde. Como esse artigo que achei nesse blog. Eu mesma demorei pra me acostumar, mas atualmente tem me incomodado menos. E nosso quarto é bem escuro...

Adorei poder ter assistido pela primeira vez, de um ponto de vista tão privilegiado. Estávamos no "festival de verão" de Landegode. Chegamos no sábado à tarde, depois de atravessar aquele mar revolto outra vez... Mas há que se pagar o preço pra entrar no paraíso... Nas fotos abaixo, a casa de churrasco que parece uma casa de bonecas, onde passamos a tarde assando e bebendo, o banheiro com a melhor vista do mundo, a geladeira improvisada, uma vez que a temperatura na sombra era abaixo de 10 graus (!), e o assado em si.






Depois de passar o dia nessas, pegamos o barquinho pra festa lá pelas 9 da noite. Não havia mais de 100 pessoas no tal festival, pois a comunidade da ilha é mesmo mínima. Tão engraçada a sensação de sair pra festa com o solão ainda brilhando. Chegando no galpão do festival, a comida servida era hambúrguer de baleia... O cheiro era divino e a vontade de provar imensa, mas eu estava comprometida com meus princípios. Depois de muita cerveja, no fim da noite, acabei dando uma abocanhadinha de nada. E era gostosa também, mas pronto. Foi a primeira e última vez... Estou envergonhada e sei que a desculpa é esfarrapada, mas fazer o que? Já foi... Nas fotos abaixo, o barquinho a caminho da festa, a comunidade a caminho da festa, o galpão da festa e o hambúrguer de baleia.





Bebemos um montão, dançamos ao som da banda local Candy (!!!) - estilo folk e country americano (!!!!), escalamos morro pra ver o sol da meia noite, e às duas da manhã montamos no barquinho de volta à casa do Thomas, amigo do Lars. No caminho de volta ainda tirei mais fotos do sol da meia noite...



E de despedida, a prainha atrás da casa do Thomas... Com maré baixa. A temperatura eram agradáveis 15 graus! E o vento, de matar. Mas ainda é o paraíso na Terra.

segunda-feira, junho 29, 2009

Minha Noruega - peripércias culinárias

Ontem à noite não tinha nem dado tempo de mencionar o golpe de Estado em Honduras... Tenho vários amigos hondurenhos que conheci nos navios... Me senti regredindo 30, 40 na história da humanidade. Enfim, não é sobre isso que escrevo hoje. Mas, P.S., a história do chupa com o Ashton Kutcher e a Demi Moore no Twitter tá dando pano prá mangana internet! Mas já é notícia velha.

Estas últimas semanas tenho aumentado meu grau de ousadia na cozinha. Como já havia dito, aqui é possível encontrar quase todo o tipo de comida pronta, mas na minha cozinha elas não entram! Essas coisas tem muito sódio, gordura trans e sabe Dues lá que tipo de preservativos e aditivos. Então tenho me virado pra fazer eu mesma. Já andava fazendo hambúrguer de salmão, que na minha versão é apenas a carne do peixe com temperos, moldada em forma de hambúrguer. Nada de gordura ou coisas calóricas. Depois passei a fazer bolinhos de peixe, ou o famigerado fiskekake. Os industrializados tem consistência gelatinosa depois de cozidos, um horror. Então, pego o peixe (qualquer tipo vale), limpo bem, taco no processador com cebola, mostarda, um poquinho de miolo de pão, ervas ou especiarias a gosto, sal, pimenta e tabasco. A resultante disso é moldada em pequenas almôndegas, depois achatadas um pouco. Coloco os bolinhos prontos numa assadeira untada e asso no forno até que estejam cozidos - em geral 10 minutos. Lars adora, e no dia que a sogra provou, também aprovou!

Na terça passada, deu na telha que eu ia fazer gravlax, em norueguês, gravlaks. Pra quem não sabe, é um salmão curado. Vende nos Pão-de-Açúcar da vida uma marca chamada Lofoten - pois é, é daqui. Lembram do meu post sobre a história da alimentação na escandinávia? Pois é, o gravlaks vem de tempos anteriores à refrigeração, quando os pescadores costumavam enterrar o salmão na praia, na linha da maré alta, e deixavam fermentar. Grav significa grave, ou cova, e laks é salmão. O processo evoluiu (ainda bem!) e passaram a curar o salmão com sal e açúcar e endro dill. Já havia feito lox, como diziam meus professores americanos do CIA (Culinary Institute of America) no curso de Chef.

Enfim, compramos um belo filé de salmão. Procurei uma receita na net e peguei a do meu livro do CIA, minha bíblia de 1200 páginas, que era o livro-roteiro do curso de chef do Senac. Comparando, usei a do livro, obviamente mais profissional.

Então, dei uma aproximada, pois eu ia fazer apenas um filézão. Numa vasilha coloquei uma xícara de sal e uma de açúcar. Não importa a quantidade, a proporção de 1 pra 1 deve ser sempre mantida. Depois peguei uns 3 pacotinhos de dill e piquei só as folhas, e misturei ao sal. Depois peguei uma pimenta do reino moída com limão, comprado pronto, e coloquei umas duas colheres de sopa. Numa outra tigelinha, misturei suco de meio limão tahiti, uma dose de aquavit (a cachaça escandinava) e uma boa quantidade de azeite. Este líquido deve ser suficiente apenas para cobrir o filé.



Depois de prontas as misturas, enxaguei o filé de salmão e procurei por espinhas, que foram removidas com uma pinça - tenho uma na cozinha só pra peixe. Então a mistura de aquavit foi pincelada no salmão. Por causa do suco de limão, ele dá uma esbranquiçadinha de leve. Então abri o filme plástico na mesa e coloquei o filé, pele para baixo. O filé foi então coberto com a mistura de sal, açúcar e dill, numa grossa camada., apertando bem. Então o salmão foi enrolado em filme plástico, mas bem apertado, para garantir que o sal fique sempre em contato com a carne. Então coloquei o peixe, desta vez com a pele pra cima, numa assadeira, e por cima é preciso fazer peso. Pus então outra assadeira com um vidro de azeite, uma lata de tomate e um vidro vazio, que enchi de água. E assim vai à geladeira por 3 dias.






A cada 24 horas é preciso escorrer a água grossa que fica no fundo da assadeira. É normal, resultado da desnaturação da proteína do peixe, causada pelo sal. Ao se juntar com o açúcar, ela engrossa e também dá o carater adocicado ao laks.

Na quinta à noite, o resultado:

Então raspei cuidadosamente o sal e dill, e dei uma enxaguadinha de leve, muito rápida. O salmão dá uma endurecida por causa da perda de água, fica com uma casca mais grossa por cima. Depois cortei o filé em três, separei uma para consumo e congelei as outras duas. No sábado, os amigos do Lars que vieram ao churrasco também experimentaram e adoraram. Ainda fiz maionese (de liquidificador) de dill e hortelã pra acompanhar. Achei que teria sabor mais delicado que a maionese industrializada que os noruegueses tanto consomem, e que tem uma cor amarela muito feia! A sogra ainda não comeu, mas vou levar pra ela. E nunca pensei que pudese ser tão simples.

Meu próximo passo, pickled herring, ou picles de arenque! Claro que, com a minha bíblia, tudo fica mais fácil mesmo...


E nosso primeiro café da manhã na varanda, e também meu primeiro pølse med lompe... Lompe é um pão de batata, em forma de panqueca mesmo. Pode ser usado para várias coisas, ele só não tem muito gosto sozinho. Mas fazem cachorro-quente com ele... Adorei. Com queijo, mostarda e catchup, assistindo ao jogo do Brasil com a África do Sul.


E ainda, no quesito comida brasileira... Outro dia eu e Bel falávamos de expatriados e suas vontades inexplicáveis de comer comida brasileira... A minha é farofa, mas ainda não vi nada de farinha aqui, nem na loja chinesa que fui sábado... Ah, foi como ir ao prque de diversões, aquele mundo de especiarias e grãos asiáticos. Vou voltar lá. Mas enquanto não volto, achei uma marca que vende feijão preto e lentilhas, já prontinhos. É só temperar. Sem aquele saco de ficar de molho nem nada! O feijão ficou muito bom, refoguei cebola, alho e bacon, e pus uma folinha de louro. Já a lentilha ficou um pouco salgada, apesar de eu não ter colocado nada de sal. A água da conserva era muito salgada, e eu só escorri, não lavei. Mas está aí a dica, GoGreen, que acho que uma marca sueca. Só encontro no CoopMega. Dessa marca também já comprei lentilha marrom seca - que fiz e ficou ótima - e feijão branco, que ainda não fiz. Quero fazer um cassoulet, mas pra isso preciso da receita da minha tia Bebé primeiro... É inigualável! Acho que nem na França...

E no quesito Comida, ainda devo um post sobre a Disneylândia das liguiças, mas isso ficará pra depois.

domingo, junho 21, 2009

A raposinha, finalmente

Sexta-feira à tarde nos mandamos para Styrkesnes outra vez - o estoque de peixe está baixo aqui no freezer de casa! Chegamos lá, a sogra (que estava lá desde quinta) nos serviu Rømmegrøt. Coisinha complicada de se explicar, mas tentarei... É um mingau de creme azedo (rømme = sour cream), feito à base de romme e farinha de trigo. Fica um mingauzão branco, bem grudento, mas um gosto difícil de explicar. Se aproxima a um queijo francês moderadamente fedido. Gostoso, até. Mas para comer com um pão, ou uma torradinha, sei lá. Detalhe - por cima do mingau, coloca-se açúcar e canela. O quê???? Açúcar e canela e queijo semi-fedido? Sim!!! E ainda serve-se o rømmegrøt com perna de carneiro seca e salgada, tipo presunto.Pode-se comprar já fatiado, tipo presunto de parma mesmo, e chama-se fenalår. Como eu sou sempre a favor de uma nova experiência gastronômica, curti a excentricidade da coisa. A sogra adora cada vez que me serve algo típico e eu gosto...

Depois, uma tacinha de vinho tinto, e Lars desceu o morro para ir arrumar o motor do barco. Eu e sogra nos ajeitamos no sofá para assistir ao concerto VG Lista Topp 20, que aconteceu em Oslo, no Rådhusplassen. É o maior concerto gratuito da Noruega e reúne anualmente cerca de 100 mil pessoas. Chovia horrores em Oslo, víamos pela tv. E porque assistir: obviamente, o a-ha encerrou o show. Uma apresentação fraquinha e sem empolgação, onde Morten errou a letra de "Riding the Crest" e cantou " Foot of the Mountain" mal pra caramba. A técnica do show não ajudou, pois a voz de Morten estava mais baixa que os instrumentos, então o bichinho deve ter feito esforço extra. Mas a-ha é a-ha... Aqui tem link pro concerto do a-ha na íntegra.

Mas antes do a-ha, enquanto eu e Marit engolíamos o festival de música ruim, Marit me disse que a raposa estava lá fora outra vez, sentada ali no sofá ela podia enxergar. Corri pra pegar a máquina, me abaixei no chão, quase engatinhando, para chegar até a janela sem que a raposa me visse. Me lembrei de desligar o flash, e comecei a bater umas fotitos. Ela nem tinha me visto. Então fui fazer um filminho, e ela me avistou. Ao voltar a função da máquina para foto, esqueci de desligar o flash e bati duas fotos. Então ela fugiu, pois fiz a bobagem de assutá-la.

Mas ainda assim...





(a música de fundo no vídeo é a tv, ainda com o show)


Pois é, mesmo assim ela deu um mole pra mim! Achamos que ela deve ter fihlotes ali por perto, pois esta sempre ali...

E no fim, pescar que é bom, nada. Apesar do tempo bom, o mar não estava pra peixe (trocadilho sim!). Muito vento, mar bravo, não dava nem pra manter o curso do barco. Fica pra próxima. Esta semana pretendo comprar um filezão de salmão e fazer meu próprio gravlax... Já tô até sentindo o gostinho!!!

Perdão pelos erros de datilografia, mas digito enquanto assisto ao jogo Brasil X Italia. Jogaço, aliás! E o computador tá pulando no colo, entre gritos e aplausos... 3 a 0 pro Brasil, so far...

quinta-feira, junho 18, 2009

Mais tuberculose, Che, Morangos, Ruibarbos e etc...

Não, eles não tem nada em comum. É que este é mais um daqueles posts mistureba.

Ontem à tarde recebi uma carta do Hospital da cidade dizendo que eu deveria me apresentar ONTEM À TARDE pra fazer radiografias... Quase não dava tempo, mas fomos, depois do almojantar. Lars me levou. Outra impressão ruim do sistema de saúde norueguês. Subimos para a ala de Raio X. Leitos com roupa de cama suja pelo corredor, e sacos de lavanderia pelo corredor. Posso não ser especialista em Governança Hospitalar, mas tenho muito BOM SENSO. Enfim, depois de rodar todo o andar para achar um funcionário e avisar que estávamos lá, como mandava a carta, Lars ainda levou pito do enfermeiro, dizendo que a carta não tinha nada que dizer isso, e que esperássemos na salinha. Meia hora depois veio uma enfermeira e perguntou meu nome. Mandou esperar. Voltou mais duas vezes, pois não conseguia se entender com meu nome... Finalmente me chamou, tiramos a radiografia, não levou nem 5 minutos. Na saída fui perguntar pra ela como receberia os resultados, e a resposta, em inglês, foi "You must leave now!" (você tem que sair agora!). Respondi a ela que não se preocupasse, pois não tinha intenção de ficar ali. Mas que precisava saber como receberia os resultados. E ela disse que o Centro de Saúde me contactaria. Vou esperar, sem estresse. Pode demorar, mas chega!

Terça à noite eu e Lars fomos ao cinema assistir "Che, Guerrilla". É o segundo filme. O primeiro, "Che, The Argentine", que traz Rodrigo Santoro no papel de Raul Castro, eu ainda não vi. Ele trata mais da Revolução Cubana, e talvez tenha sido bobagem assistir ao segundo sem ver o primeiro. Mas o Guerrilla mostra o último ano de Che na selva boliviana. Benício del Toro dá um show. Não tenho a mínima intenção de fazer resenha de filmes aqui, estou longe de ser crítica. Mas dou minha opinião, que é honesta. Eu amoooooo o Soderberg, ainda não vi um filme dele que eu ache ruim. Mas este é um tanto longo. São mais de duas horas, só ali na selva. Mas talvez tenha sido proposital, pois você começa a sentir a tensão da telona. Eu não sabia de muito deste episódio da vida dele, além de sua morte lá. Mas ainda prefiro o Che romantizado de "Diários da Motocicleta". Recomendo - mas assista ao The Argentine primeiro.

E uma nota: Bodø tem um cinema com três salas. Houve tempos de minha vida que eu jamais conceberia viver longe da variedade paulistana de cinemas. Com o advento da net, as coisas mudaram!

Vamos aos morangos... É verão, e a variedade de frutas nos mercados tem aumentado, pois os poucos itens de produção local começam a aparecer. Incluindo frutas de clima frio, que no Brasil só encontrava importadas e sem gosto de nada. Primeiro caso é o das nectarinas. Sempre adorei, mas com meio-sabor. Aqui pude enterrar meus dentinhos em nectarinas maduras e caudalosas, como aqueles pêssegos gigantes do Uruguai... Tem também as ameixas vermelhas, daquelas em que a época de comer é a do natal no Brasil. Estão cada dia mais saborosas. Uma das minhas frutas favoritas sempre foi a cereja - quase um fetiche, pois coisa muito difícil encontrá-las no Brasil. E quando encontradas, com gosto de papelão! Uma vez contrabandeei meio kilo de cerejas pra dentro do navio, em Barcelona, após uma dolorosa visita ao mercado La Boquería. Dolorosa, porque queria comprar tudo que via e ir pra casa cozinhar, mas não podia. AGORA POSSO! Comprei um sacão de cerejas. Lars não gosta, imagina! É como não gostar de chocolate!!!

Ontem, quebrei um jejum culinário meu... Finalmente encontrei ruibarbos pra vender. Comprei, limpei, descasquei, e entrei na net pra procurar uma receita simples de compota. Nunquinha na vida tinha comido ruibarbo, e já tinha lido tanto a respeito... O resultado foi decepcionante... O danado tem gosto azedo forte, quase cítrico. Uma vez cozido com açúcar, fica uma coisa doce-azeda, gostosinha, mas bem longe de ser uma iguaria. Acho que é por isso que fazem mais compota de ruibarbo com outras frutas... Sei lá!

E finalmente os morangos... Vínhamos comprando deliciosos morangos portugueses ou holandeses (estou parando de comprar importados depois do filme HOME e a diabólica visão das estufas espanholas, mas para alguns itens não tem jeito mesmo! Melhor comprar de qualquer lugar do que da Espanha, anyway). Conversando com minha concunhada, contei à ela sobre os morangos... E então ela disse "Espere para comer os morangos noruegueses, você não tem idéia...". E ontem, fomos fazer comprinhas após a radiografia. Passando pela sessão de frutas, senti um cheirinho de morango (meu nariz é biônico) e fui olhá-los. Numa caixinha azul, sem etiqueta de procedência-ou seja, não seriam importados. No cartaz, dizia morangos noruegueses. Mais baratos e mais cheirosos que os importados... Chegando em casa fui lavá-los, e só nessa brincadeira eu e Lars quase acabamos com a caixinha, de tão deliciosamente suculentos, perfumados e saborosos que eram! Me arrependi de não ter comprado mais, e quando achar de novo, comprarei mais e farei compota e geléia!!!

Ainda tenho bastante coisas pra falar sobre comida, mas agora tô assistindo o jogo do Brasil, contra os merdas dos EUA.