Pra começo de conversa, o Outono desse ano em nada se compara ao do ano passado, em que choveu, choveu, choveu. Assim como no verão. Os dias tem sido azuis, céu quase sem nuvem, e temperatura oscilando entre 4 ou 5 graus pela manhã cedinho e à noite, e 10 e 13 graus nos horários de sol. Nada mau! E por isso, é possível esse ano observar a mudança de cores da vegetação. As árvores estão começando a amarelar e derrubar as folhas. E a prefeitura plantou uns matinhos vermelhos nos canteiros da cidade, fica tudo muito lindo...
O outono também é a época da fartura aqui no Ártico (acho que no norte como um todo). As frutas e verduras amadureceram durante o verão, agora é hora da colheita, é fácil achar cebolas, cenouras, beterrabas, batatas mais fresquinhos. Frutinhas do bosque (groselhas pretas e vermelhas, amoras selvagens, framboesas selvagens, morangos cultivados, framboesas polares e rognebær), além de outras frutas e coisas tipo ruibarbo foram transformados em tortas, geléias e compotas, além de sucos concentrados, e são vendidos nessas ocasiões. Ovelhas, carneiros, e até vaquinhas, e também as renas, passaram o verão engorando nos pastos, e agora é a época do abate. As carnes do outono são mais saborosas, um pecado. Comprei kgs de cordeiro outro dia. Assado, grelhado, guisado, de todo jeito fica gostoso. Além disso, aparecem vários salames e carnes curadas de diferentes tipos. Quando chegar o inverno, os animais são recolhidos, ficam confinados nos celeiros, protegidos do frio, comendo ração e a grama que foi cortada no verão e armazenada em forma de "ovos de trator".
Ontem levantamos, vimos o sol e dia lindo, chequei o calendário e vi que tinha Bondensmarked na Torget (ou feira de fazendeiros na praça)... Lá fomos nós. Estava pequena como sempre aqui em Bodø e, ao contrario de Tromsø, não tinha nada nada de vegetais. Minto. Comprei um maço de couve, mas é uma couve diferente, chama-se grønnkål por aqui. Mas além dela euns maços de ervas frescas, era só. O resto era mel orgânico daqui da região de Sørfold (onde fica o nosso chalézinho), bolos e lefses (uma espécie de panquecona, recheada com várias coisas diferentes) feitos em fazenda, queijos também artesanais, e a supresa desse ano, uma barraquinha da fazenda que faz tudo orgânico e ficaem Kjerringøy. Além de vários tipos de queijos e derivados do leite orgânicos, eles também vendem ovos orgânicos (3o coroas por dúzia, o que é mais barato que compar meia-dúzia de ovos orgânicos no supermercado) e carne de vitela orgânica, já limpa e cortada pra guisados ou bifes, por 500 coroas por 3 kg. Muito barato. A gente deixou o telefone com o pessoal. Eles ligam e avisam quando vem pra cidade, a gente faz o pedido e eles trazem em casa! Pode? Pra terminar o festival de delícias, eles fazem pães também orgânicos, assados num forno a lenha antigo que eles tem na fazenda... Compramos uma focaccia divina, três tipos de queijo de cabra, um pote de mel, a couve...
Brunost, betaost, gradost, lofastost, e mais uns de nomes complicados. Do jeito que eu nem gosto de queijo, afemaria, consegui comprar só 3...
Aqui a barraquinha da fazenda de Kjerringøy. O cartaz pra encomenda de vitela...Então, sogra ligou e avisou Lars que havia esse fim de semana uma feira muito maior, fora da cidade. Já que o dia estava mesmo lindo e a feirinha da Torget tava xoxinha, fomos dar uma espiada na outra. Mas já na chegada percebemos que iríamos nos arrepender, dada a quantidade de carros parados no estacionamento do local. Acertamos... Não era uma ferinha nem de fazendeiros, nem especificamente de produtos típicos. Porque tinham umas 3 ou 4 barraquinhas peruanas, vendendo produtos de lã de alpaca (WTF???, tão longe!), uma barraca vendendo artigos de couro finlandês que era tanto de couro quanto tênis Nike do Paraguai, um sujeito vendendo artigos usados do Exército, enfim, uma misturança... Além disso, havia um palco com uma banda péssima urrando no microfone. Achamos então a barraca que interessava: Spekemat, ou embutidos e curados, Disneylândia do Salame, se assim preferir. Tinha salames e embutidos de alce, de rena, de porco e vaca, de veado (norueguês, red deer, uma espécie que vive mais ao sul, na região de Trøndelag), e pra nosso total choque, salame de urso...
A carne de urso curtida com whisky single malt escocês Talisker... 2280 coroas por kilo (cerca de R$760,00). O cara nem tava dando amostra, rsrsrs.Quem come urso, porra? Nem por questão ecológica nem nada, porque se a caça está aberta e o povo mata, que coma, ao menos respeita aquela morte, digamos assim. Mas nunca, jamais ouvi falar dessa...
Depois de comprar mais carne de alce curtida (não sei se já comentei, mas nosso maior projeto pro chalé é fazer um defumador e um forno à lenha...), pra Lars poder "aprender" como faz, pra poder fazer com os alces que ele caça, carne de rena curtida e salame de veado (chama-se hjortepølse e também está à venda num supermercado), fomos olhar uma barraca com itens alimentícios típicos de Norland. Truta fermentada (eca, eca, eca, não deu...), pães e doces de leite, uns queijinhos, e, pra minha surpresa, café! Pensei com meus botões, café típico de Norland??? Nesse mesmo momento, um casal hablando español... Ele latino-americano com aquela carinha de índio andino, ela, européia, falando espanhol com sotaque...
Ele: -Mira, café de Brasil, Nicaragua, Kenia y Colômbia...
Ela: - Si, pero está quemado. No saben hacerlo... Sabe amargo...
Ele: -Son raros estes noruegos... Un pensamiento muy raro...
Os dois: - Hihihihihihi!
E eu: -Hein????
E Lars: -What?
Contei pro Lars, e ele: -Ahn???? Why?
Estranho mesmo... Não compramos nada e fomos já embora dali... Mas eu fiquei muito satisfeita com a compra anterior, na Torget. Cheguei em casa e fiz couve refogada com alho, puré de abóbora, arroz e farofa de ovo pra comer com costeletas de porco. Um sabor abrasileirado num dia de sol no outono ártico.


Só em dias de céu bem limpo se consegue ver este glaciar a partir da cidade. Depois coloco o nome, ele é pequeno...











































