Terça-feira, Julho 21, 2009

Minha Noruega Surreal - longo fim de semana

Quinta-feira saímos em direção ao chalé em Styrkesnes. Anders, o cunhado, foi conosco. A esposa dele com os dois filhos e a sogra já estavam lá. Saímos com a promessa de um farmer´s market no Sábado, além de um grillfest, ou outra pitoresca festinha de verão num local pequeno...

Pois bem. Já na quinta, após nosso almojantar, fomos visitar a vizinha de chalé. Ela também estava com a família toda visitando, e Lars e Anders encontraram alguns amigos de infância. O que era pra ser uma visita rápida acabou durando horas - cerveja, depois vinho, depois torta de ruibarbo com sorvete, e na hora que abriram uma garrafa de conhaque, eu corri! Isso porque já eram duas da manhã. O melhor de tudo é que havi, entre as visitas, os cachorros das visitas, um deles um labrador preto enorme chamado Nemo.

Na sexta, eu e Lars saímos pra uma caminhada, levando conosco Nemo, o cachorro, pois a vizinha estava visitando - enquanto o irmão e sobrinhos saíram pra pescar... Subimos a montanha, tava um mormaço, e o mato seco que dói por causa da falta de chuvas. E insetos, milhões de insetos irritantes e que picam muito doído. Fui devorada viva! No caminho encontamos multebær, a frutinha amarelinha típica daqui, e blåbæer, ou blueberries, por todos os lados nos campos. Sogra disse que em duas semanas já poderemos começar a colhê-las. Há ainda outras frutinhas de bosque, inclusive framboesa, mas essas vão levar mais tempo. Tomara que chova um pouco por lá, pra elas amadurecerem...






Pescaria enorme a do irmão do Lars, vários bacalhaus e vários sei. Descemos pra praia pra ajudar a limpar os peixes - na verdade eu olhei as crianças, fomos procurar caranguejo, enquanto eles limpavam os peixes. O almoço foi uma bela peixada típica da Noruega - sei em postas cozido, servido com batatas cozidas, flatbrød e sour cream (rømme). O tempo mudou, e nesse dia choveu um pouquinho, então à noite ficamos em casa, tomando vinho e assistindo The Tudors, depois uma edição especial de um festival de jazz de Montreal em homenagem a Leonard Cohen - fabuloso!

Sábado após o café da manhã fomos de carro pra tal feira de produtores. Estava esperando algo muito genial, e na verdade havia pouca coisa. Muito artesanato. Mas ainda assim, consegui comprar 1,1 kg de bacalhau seco - e artesanal, feito pelo próprio pescador - por menos de R$30, mel orgânico sem filtragem e sem pasteurização (o mel fica uma pasta esbranquiçada, e fica sempre sólido, pois a cera e tudo o mais estão ali no mesmo pote. O sabor é divino, dá pra sentir as flores locais!), e um pote de geléia de cítricos (laranja, limão, grapefruit). Havia morangos belíssimos, mas estavam caros. A sogra comprou pra nós flatbrød artesanal, comemos vaffler e voltamos pra casa - quer dizer, pro chalé. (PARENTESES: fazia tempo que eu estava promentendo um post sobre a Disneylândia das linguiças, mas passou muito tempo e acabou ficando fora de contexto, então aqui uma pequena explicação - começo de junho fomos a uma feira em Fauske, e havia vários stands de produtos artesanais da região, sendo um deles um produtor de linguiças locais. Deixo claro que aqui na Noruega ainda não vi linguiça de verdade, nem importada. Ou é algo tipo salsicha, com a carne processada, ou é algo tipo salame, que são curados. Pois bem, esse stand em Fauske tinha salames, de tudo quanto era cor e tipo... De alce, de rena, e até de veado. Simples, ou com sabores - blueberry, cebola ou alho, por exemplo, sendo a com blueberry com menos gordura. Havia chorizos à lá espanhola, e até pepperonis. Passamos ali algum tempo provando - sim, a mulher dava provinhas! - até que resolvemos comprar uma de alce com cebola, seca a frio na montanha, e uma de rena, simples. Oh, tristeza, porque agora é dificílimo acha-las outra vez. Eu até guardei os rótulos com os telefones dos produtores. E nessa mesma feira compramos lefse também artesanal, um com manteiga e canela, outro com queijo marrom - e queijo marrom, um dia, terá seu prórpio post, no outro blog. Pra fechar parenteses, agora, a cada possibilidade de feira de fazendeiros eu anseio pelos salames exóticos...)

À tarde eu e Lars saímos pra pescar. O irmão dele e a família foram embora, pois o tempo tinha piorado mesmo, tava friozinho. E o mar tava viradinho, mas ainda assim conseguimos dois sei e um bacalhau pequeno, suficientes para o almojantar. Então eu preparei os peixes - inteiros. Aqui existe uma certa tendência a limpar o peixe de modo que se joga fora grande parte dele e sobram só os filezinhos. Acho um desperdício, especialmente quando o peixe não é grande. Então eu os preparo inteiros mesmo. Coloco cebola dentro da barriga, com sal e pimenta, cubro com sal, pimenta e ponho um tolete de manteiga. Pra finalizar, boa dose de suco de limão, ou vinho branco, que foi o que eu usei nesse caso. Tudo embrulhado em papel alumínio, e levado à churrasqueira. Peixe recém pescado, cozido em seus prórpios sucos... Tem coisa melhor? Ui, a sogra (que estava um pouco descrédula com o meu método) adorou.

Depois do almoço, foi necessária uma siesta... Lá pelas 9:30 da noite fomos encontrar os vizinhos pro tal grillfest. Eu imaginei uma festinha bem pequena, como o festival de verão de Landegode, mas foi ledo engano... Pra começar, o local da festa ficava a uns três km de distância de casa. E todo mundo vai à pé! Claro, "se beber, não dirija!" é levado a sério aqui. E lá fomos em caravana, andando devagar, sobe morro, desce morro. No meio do caminho, um pit stop pra aquecer os motores, afinal, estava frio pra burro... E tome conhaque, vodka, aquavit, o que a vizinhada tivesse nos bolsos! Qual não foi minha surpresa quando a sogra sacou um conhaque de dentro da jaqueta! Abaixo, a vista do pit stop, e a festa ficava onde estão as casinhas ao longe.


Ao chegarmos no local, havia muita gente, já embriagada, e uma porção de adolescentes. Eu detesto adolescente, e eles estavam muito bêbados. Antes de entrar na festa! Lá dentro, havia de tudo... Vovós empertigadas com seus terninhos brancos (!!! Afinal, é verão!), pescadores bebuns, e até duas mocinhas brasileiras que não falavam nem uma palavra de inlgês e muito menos de norueguês, e que estavam sendo tratadas como dois cachorrinhos pelo povo, dois brinquedinhos, de colo em colo, literalmente... Aliás, como coincidência pouca é bobagem, uma delas estava atracada com um rapaz que usava uma jaqueta da Royal Caribbean. Eu até quis ir falar com eles, mas mudei de idéia, sinceramente - e Lars também não estava muito afim de se envolver com eles... Tava na cara que eram pessoas que não tinham nada em comum conosco, mas eu senti um pouco de pena delas (as mocinhas brasileiras) no início. Depois pensei bem, e concluí que cada um com seus problemas - as pessoas tem livre arbítrio e se colocam nas situações que desejam pra si... Deixei pra lá - depois de ler tanta besteira nas comunidades de brasileiros na Noruega do Orkut, de gente que muitas vezes nem português consegue escrever direito, achei que me envolver com as meninas poderia "um dia voltar e me morder na bunda" como dizem os americanos.

Enfim, quando pararam de vender cerveja lá pelas 2 da manhã e a sogra e a amiguinha dela partiram, disse ao Lars que era a nossa deixa pra ir embora também. Havia muito pouca gente que não cambaleava... E fomos, cheios de coragem, enfrentar 3 km de morro, quando mais ou menos na metade do caminho passa um carro, e é a nossa vizinha, que nos deu carona!!! Yey!!!! A sogra nos esperava com um lanchinho, e fomos dormir.

Domingão, a sogra tava com uma idéia fixa de ir a uma igreja que fica num vilarejo dentro do fjord, a mais ou menos uma hora de barco. Por sorte, o dia amanheceu belíssimo, sem uma nuvem no céu. Fizemos sanduíches, levamos água e suco, e lá fomos nós. Vimos no caminho um ninho de águia marinha, o mar estava calmo... Chegando lá, me deparo com um lugar belíssimo, super bucólico e pitoresco. A igreja é de 1664, e nela há um crucifixo que foi fabricado em Limoges, na França, no século 12. A construção é de toras de madeira, típica de Nordland (o Estado onde vivo). Conta a lenda que os homens que ocuparam a terra (preciso descobrir quem eram) atiraram uma tora de madeira no fjord, e onde ela batesse na praia eles construiriam a igreja. A comunidade é mínima e a igreja só realiza missas duas vezes ao ano - e domingo era uma dessas vezes. Até a rede de TV NRK estava lá gravando um programa. E enquanto a sogra assistia a missa, eu e Lars encontramos um cachorro da raça que queremos (elkhound, a raça típica da Noruega, e caçador de alces), exploramos os arredores e fomos à praia - considerada a mais bonita da região. No caminho, a natureza se revelava a cada passo - nas flores selvagens, mais belas que qualquer flor de cultivo, nos pássaros e insetos, ou nas dramáticas montanhas que terminam no mar... Imagina morar num lugar assim...












Na volta, paramos pra pescar... A sogra pescou um bacalhauzão de uns 4 kilos, e me pediu pra preparar um almojantar pra ela, que ela queria experimentar o bacalhau fresco de um jeito diferente. Pescamos também dois sei, e ela pediu pra eu fazê-los do mesmo jeito de sábado e chamou um dos vizinhos pro almojantar. Além do peixe, comemos também churrasco de alce. Depois da comida, uma descansadinha, assistimos ao último capítulo de John Adams e fomos dormir cedo.


Segunda, o Lars foi trabalhar ao norte de Styrkesnes, e eu passei o dia com a sogra. Fomos à praia, tentamos nadar - mas a água é tão fria que chega a doer os ossos, apesar de estar quente e do sol torrar a gente... Queimei o rosto - e meus pés, pois fui caminhar de havaianas - eita, que brasileiro não perde as manias! Fora as picadas de mutuca e mosquito pelo caminho, mas volto a dizer que tudo tem seu preço. E o de viver no paraíso é esse! À noite a sogra me levou até um hotel na estrada principal, e Lars nos encontrou lá. Comemos um sanduba, nós voltamos pra Bodø, e ela pro chalé, onde fica até sexta. Sexta no jantar ela vem comer bolinhos de bacalhau aqui em casa... E fomos convidados pra um fim de semana em Lofoten no início de agosto... Não vejo a hora!

Ah! Caso alguém se pergunte o porque do surreal no título... É que a minha Noruega é surrealmente linda!



5 comentários:

Bel Boucher disse...

Realmente, Camila, a Noruega é linda! Estou muito bem impressionada!

Só espero que durante o inverno tenha outras interessantes para que vocês continuam aproveitando o país.
bj

Luciana Håland disse...

Camila, seu fim de semana foi bom demais, e gostoso também. Estou sentindo falta desse contato mais próximo com a natureza, como você teve, aqui o negócio está urbano demais pro meu gosto, as férias da semana passada, o gladmat de hoje, foi só shopping, cansei.
Menina, vocë também passa pelas comunidades do orkut? Sempre deixo meu pitaco por lá, mas mais na Brasileiros na Noruega, e você fez bem, eu também não me meto nem me aproximo quando vejo brasileiras que não tem muito a ver comigo, e claro, a gente saca quem tem. Já até aconteceu de haver aproximacão, mas não dessa forma, mas vindo através de terceiros ou me procurando no orkut, mas não deu certo eu corto numa boa.
Mas não tenha pena, essas coisas elas fazem no Brasil também, a maioria é cobra criada, se vira bem e no mundo todo.
Bom, de certa forma como mulher dá pena mesmo, mas cada um com o caminho que escolhe, ou que a vida impôs até certo ponto e a pessoa não soube ou quis mudar.
Tudo muito lindo por aí, estou comecando a achar que por suas bandas a Noruega é mais bonita.
Eu gosto dos salames que você comentou lá no blog, mas não comi, aliás, gosto de tudo. Hoje nem desci pra parte que tem o gladmat, mas volto pra fazer umas fotos, acho que semana que vem, vou ver quando termina.
Mas o tempo aqui está feio, só chove.
Beijo

Camila Castro disse...

Pois é, Lu, aqui é muito bonito mesmo - e bem rural. Muita natureza,cidades pequenas e essas paisagens dramáticas... Programe-se para uma visita um dia! Seria legal - a gente se conhece e vcs vem conhecer este pedaço de mundo esquecido pela civilização moderna! Tô curtindo muito morar aqui. Mas tenho medo do inverno e das noites polares...

Que pena que chove aí... Daqui a pouco melhora! Tira bastante foto da Gladmat pra eu ver - e dos salames também!

E sobre o Orkut - vixe! Uma vez entrei na comunidade de Casadas pra colocar informações sobre o visto de noiva, querendo ajudar, e quase fui apredejada... Saí de fininho e resolvi nunca mais postar nada lá. Leio sempre - algumas vezes tem informações importantes... E foi assim que achei seu blog, na verdade! Você é uma das únicas pessoas ponderadas lá. A grande maioria é tão sabichona... Mas não participo, não. Só assisto, rsrs!

beijo

Claudia disse...

Camila,

Lindas fotos, a Noruega é linda. Aqui em Trondelag a natureza é tão dramática quanto aí e tem montes de ilhas lindas dentro do Trondheim Fjord, mas as ilhas do norte são mais desertas, tem o tal vento constante que dá um tom mágico. Mas não tem gente aí, né? A população é praticamente nenhuma.


E que mico que esse povo paga não? Mesmo num lugar pequeno, sem ninguém, fica todo mundo bêbado o tempo todo. Eu simplesmente aceito isso e por isso não convivo com noruegueses, a não ser com a família do Per. O povo daqui é uma gente esquisita, que não fala com ninguém, não responde um "bom dia", não olha no olho e de carão cheio o tempo todo. E os mais jovens são os piores, uma geração mais estranha do que a outra.

Agora, nega me diga, você tem uma sogra que pesca? Maravilha. Eu fiquei com desejo depois de ver os peixes sei frescos. Eu compro sei direto aqui, é o meu favorito.

Então aproveite pois essa beleza toda dura pouco, no final de setembro nosso mundo ensolarado vira abóbora...


Beijo,

Claudia

Camila Castro disse...

Pois é, Claudia, a sogra pesca e colhe berries, faz pão, tricota, esquia, escala montanha e anda de bicicleta, do alto dos seus 65 anos! E toma conhaque no bico da garrafa em festa do interior!

Essa coisa de bebedeira eu sou meio calejada, pois todo tripulante de navio acaba bebendo demais... Depois de 9 anos no mar, posso dizer que já vi de tudo, afinal trabalhava com álcool, no bar. E mesmo gostando de tomar nossos traguinhos de vez em quando, NADA se comprada à voracidade dos norugas com relação à isso... Choca!

Eu convivo com os noruegueses amigos do Lars, e já recusei convites para reuniões ou festas que sabíamos, seriam de embriagados. Mas no geral, aqui em Bodø, cidade pequena, as pessoas são grosseiras na fila do mercado, ou andando na rua. Acho uó! Mas como os MEUS noruegueses são ótimos, tudo em riba...

Pescar o peixe e cozinhá-lo em seguida é um prazer indescritível. Congelamos muito, mas sabendo que tava fresquésimo ao ser congelado....HUM... Agora em Outubro Lars vai caçar alce - morro de dó, mas devo admitir, carne orgânica, baixa gordura e colesterol , é uma delícia, e o melhor, gratis!

Se vcs aí viram abóbora no inverno, e nós aqui? Tenho medo...