sexta-feira, janeiro 15, 2010

Pensar no Haiti é muito difícil...

... porque, ao contrário de milhões que assistem ao aftermath pela TV e se penalizam, nós, ex-tripulantes da Royal Caribbean que visitavam a ilha regularmente, temos outros sentimentos. Ao menos eu tenho.

Primeiro, frustação por não poder ajudar de maneira concreta, por não fazer mais parte da equipe. Segundo, por lembrar da condição de miséria extrema que pude presenciar com estes olhinhos da minha cara. E se era difícil num vilarejo que tem investimento e infra-estrutura um pouco mais próxima do adequado, imagine na capital e periferia... Uma visão dantesca me vem à mente, é até difícil pensar nisso.

O engraçado é que este pobre país vive assim há décadas - senão séculos - e só quando a natureza ataca sem aviso é que as atenções do planeta se voltam à ilha...

Escrevi um post sobre o Haiti no fim do ano passado, lembrando do Natal de 2008, quando nós do Freedom of the Seas levamos presentes às crianças de Labadee... As histórias que ouvi nos meus 4 meses de trabalho mais direto com os haitianos e gerentes da propriedade da Royal, e as cenas que vi, são coisas que jamais se esquece. Jamais.

Por isso criei forças pra escrever este post, mesmo sem a menor vontade de escrever, pois estamos enfrentando a nossa própria perda. Aquela gente precisa muito de ajuda. E me dá orgulho de saber que o governo brasileiro pode ajudar com dinheiro e mantimentos...

E a própria Royal Caribbean está ajudando, enviando doações e mantimentos para uma organização que os recebe em Labadee e distribui às áreas necessitadas. Independence of the Seas já está levando uma parte, e mais mantimentos serão embarcados no Liberty e no Navigator of the Seas. Quem recebe as doações de alimentos é uma entidade chamada Food for the Poor. Vários fornecedores de produtos alimentícios da Royal Caribbean estão colaborando com arroz, feijão, água, leite em pó e outros enlatados em geral.

Existem várias outras formas de ajudar - infelizmente à distância, se ó pode ser financeiramente, se você puder. Visite a seção Impact your World no site da CNN e veja por onde.

Mas não se esqueça jamais, que bem aqui no seu país, há gente precisando de ajuda também. Angra dos Reis, Ilha Grande, o Rio mesmo, e o sul e nordeste do país, e São Luís do Paraitinga, cidade histórica no Vale do Paraíba. As vidas de milhares de pessoas foram alteradas pela força das tempestades, e a ajuda que estão recebendo não é suficiente. Antes de pensar no Haiti, pense em seu próprio povo. A Cruz Vermelha de São Paulo informa ter apenas 15 voluntários ajudando a Defesa Civil. Pra contribuir com a CV, clique aqui. A CV do Rio informa quais os Estados que necessitam de doações. A Defesa Civil de São Paulo solicita voluntários pra São Luís do Paraitinga.

E, numa outra nota, quero agradecer de coração ao apoio de todos os amigos virtuais - e de carne e osso - no momento que atravesso com minha família. As boas vibrações que emanam é de grande ajuda... Fico aqui no BR até dia 19, e não sei se consigo voltar com o blog na mesma movimentação de antes, mas eu tô na área...

5 comentários:

Tietta Pivatto disse...

Oi Camila

Bom "ouvir sua voz" novamente!

Sim, é muito triste o que está acontecendo no Haiti, mais um montão de gente que morre e que não vai fazer falta nenhuma para o resto do mundo. Cruel ler isto não é? Mas é a pura verdade. Gente pobre, miserenta, que não participa do consumismo mundial, e que por falta de oportunidades se auto destrói. É assim no Haiti, é assim na África e em todos os rincões miseráveis no mundo. Gente que teve o azar de nascer nestes locais e que com raríssimas exceções, um ou outro entre milhões terá a chance de ser alguém na vida e ter um nome. Sim, pois o resto é número de estatística.

Serão foco de ajuda humanitária por algum tempo até que a nova catástrofe eleja novos astros para a imprensa.

É bonito ver como todo mundo tenta ajudar com comida, água, remédios, tão necessários para eles agora, mas e depois? E as oportunidades para que o país renasça? E a educação adequada às crianças? E a ética para os políticos e empresários corruptos, vão chegar também em navios e aviões? Isso demora bem mais.

Sinto também pela perda da Dr. Zilda Arns, uma das pessoas que tinha o dom incrível de amar demais a humanidade, especialmente os mais esquecidos, aqueles que como eu disse antes, são contados apenas em números.

E não desanime de escrever. Não se prive desta terapia saudável. Não precisa publicar, mas escreva, é claro para todos nós que te acompanhamos que a escrita é uma forma de você se relacionar com o mundo, então use ela a seu favor também.

Todo mundo vai respeitar teu silêncio, claro, mas ficaremos muito felizes quando você voltar ao blog, entenderemos seu significado. Não se sinta pressionada, teu tempo é teu.

Beijos,

Tietta Pivatto

Camila Hareide disse...

Titi
Sobre o Haiti, você está coberta de razão... Acho que o que o choca as pessoas é que o país sempre foi tão fu****, porque precisaria de uma tragédia dessas? O duro é que chocaria se fosse em qualquer outro lugar também, mas quando acontece aqui no quintal de casa, a população não se mobiliza. Se mobilizou para ajudar Santa Catarina ano retrasado porque o governo de lá fez campanha. Cadê os governos paulista e paulistano, por exemplo, criando contas pra doações pra São Luís do Paraitinga ou pra ajudar aos próprios paulistanos que perderam tudo? Cadê os ônibus com voluntários indo pro Vale do Paraíba?

Por isso é fácil se comover com o Haiti, pois é comoção de sofá, do tipo "não preciso levantar a bunda da cadeira porque aquela gente não faz a menor diferença, mas é bonito ter peninha". E a comoção com os próprios compatriotas? Aqui em São Paulo, um bairro se alagou no fim do ano, e nem a merda de prefeitura nem a população se mobilizaram com NADA.

Eu fiz minha doação pro Haiti, mesmo ciente que ela é quase nada. Depois do incidente, há duas saídas... Ou o Haiti voltará à merda total, como sempre, e o mundo se esquecerá deles novamente, ou o mundo resolverá de fato ajudar - com investimentos - na reconstrução do país (que na verdade é a Capital, pois o resto da ilha não foi destruído) gerando empregos de construção civil e infra-estrutura, quebrando o ciclo de miséria. É esperar pra ver...

Quanto a escrever, não tenho intenção de parar, uma vez que, parece, foi a herança genética de meu pai pra mim. Mas tá duro encontrar coisas que me inspiram. Tenho estado muito pessimista com relação ao futuro da humanidade. Tomara que eu mude de idéia...

Agradeço de coração seu apoio, e esteja certa de que visitarei vocês o mais breve possível, com sogra na mala e tudo. Voltaremos no fim do ano. Só tô muito triste pelo seu presente ainda não ter chegado, maldito correio norueguês...

beijo
Camélia

Beth/Lilás disse...

Camila que bom vê-la por aqui de novo!
Tudo isso que vc está sentindo com relação ao futuro da humanidade, também venho há meses com o mesmo sentimento, mas sei que não é bom, não vai ajudar muito se todos nós tivermos este sentimento.
O caso Haiti não é de agora o sofrimento, este foi mais um inferno que eles estão sofrendo e o que me enoja também é o sensacionalismo que certas emissoras fazem sobre o ocorrido.
Não vou me alongar, pois não estou muito legal e posso falar besteiras, mas meu sentimento estes dois últimos dias estão misturados e confusos, minha fé está indo por água abaixo e é melhor que eu me cale.
Um beijo grande e saudades!

Douglas disse...

Realmente é triste a situação do Haiti, triste mesmo. Espero cada um faça sua parte, da forma que puder, porque a gente não é nada aqui, dependemos uns dos outros.

Bacana você dar esse alerta, principalmente você que tá passando pela perda de um ente querido...mostra um bom coração, no mínimo.

Meu pai de 58 anos teve um início de derrame dia 31 e está com o lado esquerdo parado, fazendo fisioterapia diariamente, mas totalmente dependente, nem consegue se levantar...é muito triste a situação.

Falo isso porque enquanto ele estava na UTI foi um pesadelo, a sensação de que algo ruim poderia acontecer era horrível, e perder alguém tão próximo é muito difícil, principalmente subitamente.

Sinto muitíssimo pela sua perda, que você e sua família ache conforto nesse momento difícil.

Abraço.

Lúcia Soares disse...

Oi, Camila. A sua amiga Tietta falu tudo o que é preciso e seu post também está ótimo. É a mais pura verdade que provavelmente a ilha acabará esquecida daqui a uns dias...
Quanto ao seu momento, claro que só há lugar pra tristeza, mas acredite: vai melhorar, a vida vai seguir seu ritmo e você, afinal, vai compreender que seu pai seria o primeiro a não querer sua tristeza. A dor vai passar, a saudade vai aumentar, os porquês vão aparecendo...mas a vida seguirá seu ritmo. Felizmente, você vai ver.Você foi uma boa filha, ele foi um bom pai ("vejo" ns entrelinhas) e embora tenha sido uma partida prematura, aos poucos as coisas se ajeitam. Dê-se um tempo, sim. O quanto precisar...Bj