Terça-feira, Agosto 02, 2011

Pequenas reflexões

(Comentários para esta postagem estão desabilitados porque na verdade isso é uma desopilada de fígado, não uma conversa. Não quero saber o que os outros pensam sobre o assunto, sinceramente. Chega dessa história. Alerta - escrevi uma porção de palavrões!)

Sobre o atentado terrorista em Oslo no final de julho, preferi não falar nada. A tragédia é tão imensa que fala por si, portanto, foi absolutamente desnecessário comentar o assunto. O silêncio é mais sensato. Especialmente porque, no auge acalorado do momento, é fácil apontar dedos e falar merda, como eu vi muit@s fazendo naquele fim de semana. As investigações esclareceram (e ainda estão esclarecendo) o caso, e talvez pelo inesperado da coisa o choque tenha sido ainda maior. 

Porque, né, convenhamos, no nosso Brasil merdas dessa altura (talvez de outro naipe) acontecem todos os dias. Conversando com minha mãe, ela me contou como a coisa tá feia em São Paulo. O sobrinho, filho, seilá, de uma conhecida, de 24 anos, foi atropelado na Vila Madalena por uma playboyzinha rica e bêbada ao volante. Não vira notícia. Nas periferias de SP chacinas e matanças acontecem a todo o momento, mas não viram notícia. A ONU decretou fome (em inglês, famine, que siginifica que a coisa lá passou de feia há muito tempo) na Somália, e as imagens que vem de lá não viram notícia, afinal, não é "novidade" fome e miséria na África. O mundo está desmoronando na frente dos nossos olhos, mas as pessoas se recusam a enxergar. Porque a realidade é cruel, então é mais fácil passar ao largo, consumindo desenfreadamente, tacando tudo no lixo sem separar nada, comendo comida com quilos de agrotóxicos e agentes cancerígenos, e desperdiçando água até não poder mais. Mas aí um tarado maníaco racista de merda faz o que fez e o mundo fica estarrecido. Não entendo...

Claro que foi trágico e estarrecedor, mas meio que tava demorando pra algo assim acontecer, o difícil seria imaginar que aconteceria na Noruega. País chamado errôneamente de pacífico/pacifista pela imprensa e público em geral. Porque como quem tem %& tem medo, perdoem a expressão, a Noruega sabe que tem uma população minúscula, e portanto um exército menor ainda, e em caso de guerra (eles ainda são um povo bem traumatizado pela II Guerra), se algum gigante (como a Rússia, de quem eles tinham um pavor horrível) atacasse, babau Noruega. Por isso eles fazem parte da Otan, realizam exercícios aqui na minha região (onde vivemos com F16s voando sobre nossas cabeças o tempo todo), e mandaram, sem ter nada a ver com isso, tropas para o Afeganistão (e depois choraram horrores a morte de 4 soldados ano passado), e pra Líbia. Os moços que foram pra Líbia saíram direto daqui, e dormiram no meu hotel na véspera. Pacífico não, que o buraco é mais embaixo. O jeito é estar em conformidade com o bloco "poderoso" do planeta, custe o que custar. Sem falar na onda contra imigração/imigrantes que vem aumentando na Noruega e na Europa toda, e as propostas dos partidos de direita, vergonhosas. Sem imigrantes a Noruega se extinguirá, só não vê quem não quer (ou quem é racista de merda e usa a desculpa de ser contra imigração como fachada)...

Mas uma coisa que faz com que os noruegueses (e talvez os suecos e dinamarqueses, e talvez os finlandeses possam ser incluídos nesse grupo) serem noruegueses é a batalha constante por uma sociedade justa, de inclusão, com uma população que age corretamente. O  que faz dos noruegueses noruegueses é a barraquinha que vende batata na beira da estrada, onde a batata e o potinho pra pôr o dinheiro, e uma plaquinha com o preço ficam ali, sozinhos, e o povo para, põe o dinheiro no potinho e pega apenas a batata pela qual pagou. Outro exemplo legal, e num texto excelente sobre o mesmo assunto aqui. E por isso, o mundo chamou a Noruega de inocente e ingênua. E a forma de viver aqui não tem nada de inocente ou ingênua. Talvez eles vivam numa realidade paralela, se comparando com outros lugares do mundo, mas se a sociedade hoje é assim, é porque se lutou e muito pra isso. E isso não é inocência, é caráter, que é ensinado de geração a geração... 

Nas demonstrações contra o terror e de apoio aos sobreviventes, eles se mostraram iguaizinhos, com a mesma força de caráter. Como que dizendo pro tarado-doente que cometeu o crime que ele não conseguiu quebrá-los. O rei e a rainha na rua, no meio do povo, com um mínimo de proteção. O príncipe e princesa (que perdeu um familiar na ilha) também circularam livremente por vários locais, como fazem em geral. O PM se ergueu como um gigante, e se portou de maneira exemplar. Chorou em público, apertou mãos, abraçou parentes. Em cada localidade em que houve algum tipo de manifestação houve um membro do governo presente. Isso é raro e está longe de ser ingênuo. Pode ser eleitoreiro, pode ter interesses políticos no gesto (afinal vai começar mais uma campanha), mas não é inocente e ingênuo, baralho! É preciso parar de enxergar a Noruega como Wonderland...

E é só isso que eu tenho a dizer sobre o assunto, Me recuso a dar qualquer tipo de publicidade pro maníaco demente que cometeu o crime. E que a Europa acorde pra onda de ódio que está ameaçando se levantar como uma destruidora tsunami. Preconceito é uma merda, racismo é pior e mais perigoso (tem aqui outro excelente texto sobre isso). A humanidade já assistiu como isso pode terminar. Por isso aprenda: não discrimine, não faça piadas com o assunto e nem ria delas. Aceite a diversidade ética e cultural, PRINCIPALMENTE se você é imigrante. Assim você se aproxima mais dos princípios que os escandinavos vem defendendo há tempos.

E pra terminar, se você é brasileir@, assista ao vídeo abaixo (reserve cerca de 1 hora de seu tempo, é belo!) e pensará 10 vezes antes de abrir a boca pra falar de imigrantes... Seu sangue é imigrante!

Somos São Paulo [We Are São Paulo]. 6 bilhões de Outros from GoodPlanet on Vimeo.