O gelo é o que eu venho paulatinamente levando no cabeção todos os dias, indo E voltando do trabalho. Quinta consegui capturar em vídeo... Na varanda aqui de casa. Durou alguns minutos, como de costume. Fico achando que são as tais cumulus nimbus passando carregadas, e as gotinhas congelam lá em cima. Sei lá...
Ainda não é neve, é granizo. Bem redondinho, pequeno (ainda bem, senão imagina quão dolorida eu estaria, rsrsrs), faz barulhão, não molha, e derrete quando encosta na nossa pele... Ontem à noite a tempestade foi forte, e enquanto caminhava apenas um bloco, ficou tudo branco - rua, calçadas, carros, meus ombros... Até tentei tirar uma foto com o celular, mas a memória tava cheia (acho que é a música do a-ha, só pode ser isso lotando a memória...). Achei que fosse levantar hoje e ir trabalhar patinando outra vez, mas pela manhã a maioria já havia derretido. Havia apenas alguns trechos mais escorregadios. E o isbrodd passou a morar na bolsa, ainda mais depois dos preciosos conselhos de Raquel e Claudia. Hoje choveu na minha cabeça na volta do trabalho. Basta eu chegar em casa e para de chover!
O bife é o que eu arranquei do dedo hoje. O hotel está com um grupo de pessoas com deficiência da fala (gagueira - qual é o nome correto, me corrijam?), e hoje, ao preparar a salada para o almoço deles, cortei uma tampinha do dedão fora. O duro não é a dor, mas o tanto de sangue que sai das extremidades. E eu ODEIO sangue!
Uma vez, lá no Hotel Pergamon, o Rai (short for Raimundo), rapaz pernambucano arretado com olhões verdes, que lavava a louça e ajudava com tudo, fez o mesmo, mas o dele foi bem fundo. Passei pela cozinha e vi aquela comoção, aquele monte de homem grande - os cozinheiros - tudo desesperado, e o pior, o menino sangrando na pia da cozinha. Tantos treinamentos de Primeiros Socorros que tive na vida - no Pantanal, nos navios, no curso de Chef e até na faculdade de hotelaria - plantaram um instinto em mim que eu não sabia que tinha. Era sangue pra tudo que era lado - mas higiene sanitária acima de tudo, não se sangra aonde se prepara comida! Catei vários panos de pratos limpos, enrolei a mão do Rai e fiz ele correr comigo pro banheiro feminino. Ele tão educadinho que hesitou em entrar. Abri a pia, botei o dedo embaixo da água, e saía sangue, hein? Pros marmanjos deseperados, deleguei tarefas. Mandei um ir lavar a pia da cozinha com cândida, outro ir chamar o motorista, e outro ir buscar panos de prato secos. O sangue não ia estancar e ele ia precisar de pontos, o corte era fundo. O motorista já trouxe o carro (os fundos da cozinha davam pra garagem), e Rai tava com paninhos limpos bem apertadinhos e o braço pra cima. Quando ele entrou no carro e o carro saiu, eu quase desmaiei... O Chefe precisou me segurar e me sentar. Não é engraçado? Ah, e Rai levou 3 pontos, chegou do Pronto-Socorro todo orgulhoso contando sua braveza. Dizia "Nem tomei anestesia!". Saudade daqueles meninos da cozinha do Pergamon...
Então, hoje lembrei desse causo porque meu dedão sangrou pra caramba, enquanto eu cortava alface com a faca que eu mesma amolo toda semana... Vamos combinar, corte com faca cega é pior... Então, pedi à Nina que fosse na recepção buscar o kit de primeiros-socorros. Pus gelo, nada. Pus debaixo da água, mas doeu pra burro. Apertei com papel-toalha, pusemos gaze, enrolei esparadrapo apertado, e tacamos 3 luvas de borracha. Servi o almoço do povo (a salada que tava cortando, claro, joguei fora, pois o pedaço do dedo poderiaestar ali, né? Já pensou?), terminei meu turno, e só então tirei a bandagem provisória. Havia sangue pra caramba, e aquele aroma peculiar... Mas o ferimento, pequeno, já estava estancado.
Foi dureza tomar banho, mas agora já limpei, desinfetei e taquei um monte de iodo. Dois band-aids e algodão pra amortecer, e tá tudo em ordem. Sem motivo pra maiores preocupações.
E a carta: ao chegar em casa, depois de uma caminhada com gelo na cabeça, e dor no dedão picotado, encontro uma carta da Polícia. Era uma notificação de que meu visto está pronto, e tenho que ir buscar a etiqueta (pra colar no passaporte) semana que vem. O engraçado é que Segunda eu tô de folga e ia mesmo na Polícia perguntar sobre o visto, já que o visto de noiva vence semana que vem... Aqui na Noruega a Polícia e a Imigração funcionam juntas.
Foram dois meses e 10 dias de espera - até que não tá mal...
Pra fechar com chave de ouro - na verdade não, porque fiquei triste - Lars e o time de caça pegaram um alce hoje, e claro que é um dos alcinhos órfãos. Que dó... Sei que eles não sobreviveriam ao inverno sem leite de mas é triste assim mesmo. Preciso rever meus conceitos pra não ficar infeliz...
O bife é o que eu arranquei do dedo hoje. O hotel está com um grupo de pessoas com deficiência da fala (gagueira - qual é o nome correto, me corrijam?), e hoje, ao preparar a salada para o almoço deles, cortei uma tampinha do dedão fora. O duro não é a dor, mas o tanto de sangue que sai das extremidades. E eu ODEIO sangue!
Uma vez, lá no Hotel Pergamon, o Rai (short for Raimundo), rapaz pernambucano arretado com olhões verdes, que lavava a louça e ajudava com tudo, fez o mesmo, mas o dele foi bem fundo. Passei pela cozinha e vi aquela comoção, aquele monte de homem grande - os cozinheiros - tudo desesperado, e o pior, o menino sangrando na pia da cozinha. Tantos treinamentos de Primeiros Socorros que tive na vida - no Pantanal, nos navios, no curso de Chef e até na faculdade de hotelaria - plantaram um instinto em mim que eu não sabia que tinha. Era sangue pra tudo que era lado - mas higiene sanitária acima de tudo, não se sangra aonde se prepara comida! Catei vários panos de pratos limpos, enrolei a mão do Rai e fiz ele correr comigo pro banheiro feminino. Ele tão educadinho que hesitou em entrar. Abri a pia, botei o dedo embaixo da água, e saía sangue, hein? Pros marmanjos deseperados, deleguei tarefas. Mandei um ir lavar a pia da cozinha com cândida, outro ir chamar o motorista, e outro ir buscar panos de prato secos. O sangue não ia estancar e ele ia precisar de pontos, o corte era fundo. O motorista já trouxe o carro (os fundos da cozinha davam pra garagem), e Rai tava com paninhos limpos bem apertadinhos e o braço pra cima. Quando ele entrou no carro e o carro saiu, eu quase desmaiei... O Chefe precisou me segurar e me sentar. Não é engraçado? Ah, e Rai levou 3 pontos, chegou do Pronto-Socorro todo orgulhoso contando sua braveza. Dizia "Nem tomei anestesia!". Saudade daqueles meninos da cozinha do Pergamon...
Então, hoje lembrei desse causo porque meu dedão sangrou pra caramba, enquanto eu cortava alface com a faca que eu mesma amolo toda semana... Vamos combinar, corte com faca cega é pior... Então, pedi à Nina que fosse na recepção buscar o kit de primeiros-socorros. Pus gelo, nada. Pus debaixo da água, mas doeu pra burro. Apertei com papel-toalha, pusemos gaze, enrolei esparadrapo apertado, e tacamos 3 luvas de borracha. Servi o almoço do povo (a salada que tava cortando, claro, joguei fora, pois o pedaço do dedo poderiaestar ali, né? Já pensou?), terminei meu turno, e só então tirei a bandagem provisória. Havia sangue pra caramba, e aquele aroma peculiar... Mas o ferimento, pequeno, já estava estancado.
Foi dureza tomar banho, mas agora já limpei, desinfetei e taquei um monte de iodo. Dois band-aids e algodão pra amortecer, e tá tudo em ordem. Sem motivo pra maiores preocupações.
E a carta: ao chegar em casa, depois de uma caminhada com gelo na cabeça, e dor no dedão picotado, encontro uma carta da Polícia. Era uma notificação de que meu visto está pronto, e tenho que ir buscar a etiqueta (pra colar no passaporte) semana que vem. O engraçado é que Segunda eu tô de folga e ia mesmo na Polícia perguntar sobre o visto, já que o visto de noiva vence semana que vem... Aqui na Noruega a Polícia e a Imigração funcionam juntas.
Foram dois meses e 10 dias de espera - até que não tá mal...
Pra fechar com chave de ouro - na verdade não, porque fiquei triste - Lars e o time de caça pegaram um alce hoje, e claro que é um dos alcinhos órfãos. Que dó... Sei que eles não sobreviveriam ao inverno sem leite de mas é triste assim mesmo. Preciso rever meus conceitos pra não ficar infeliz...





5 comentários:
Camila, que bom que seu visto saiu, e realmente, até que não foi muito tempo, e você é um exemplo de uma que não ficou sentada reclamando de tudo e de todos e metendo o pau na polícia por demorar, foi viver, afinal a vida não pára na espera do visto.
Menina, eu me corto, eu me queimo, quando estou cozinhando, mas ainda bem que os cortes são superficiais. Espero que o seu sare logo.
Quanto ao alcinho, nem sei o que comentar, dia desses eu tava falando que isso de cacar é muito triste, afinal se pode comprar carne no supermercado, daí comecei a falar que as carnes que compramos no supermercado são de animais já criados para isso, depois eu fui continuando com meu blá blá blá e fui dizendo que não sabia o que era pior, se cacar ou a vida de um animal que era criado pro abate, e meu marido olhando com cara estranha pra mim, depois eu continuei em dizer que não sabia o que seria do mundo se as pessoas não comessem carne, ia ter mais animal que gente, já que todo ano temos a época do fårikål e mesmo assim vejo ovelha demais, e que sem o fårikål o mundo ia ser dominado pelas ovelhas, enfim... percebeu a confusão?!!! Mas no fim concluí que é apenas o natural, caca e predador, sei lá, coma sem culpa e não pense ao comer. Espero ter ajudado um tiquinho com essa minha história confusa sobre comer carne.
Beijo
Filha
Existem duas opções na vida com relação a comida. Ou se é vegetariano ou se come carne. Comer carne significa comer bicho. Então não adianta sofrer, nem ficar infeliz. Só acho que quanto menos souber sobre o assunto melhor.
Já que caçar compete ao Lars, e ele fez isso sempre e todos os homens pelo que tenho lido nos blogs tb fazem, é cultura do país. Então acho isso. Quanto menos vc souber detalhes melhor. Principalmente porque mesmo que vc não comesse carne ele continuaria caçando e comendo certo?
Cuide do seu dedão e não fique triste.
Beijo saudoso da mama.
Luciana, imagino a cara do seu marido, achando vc meio confusa... Mas é como minha mãe disse aí em cima... Optou por comer bicho, então engole, né? E eu teria MUITA dificuldade em ser vegetariana, apesar de amar grãos, verduras, frutas, tofu, soja, etc. Mas na hora de um bifão bem suculento, impossível abrir mão. Então melhor não pensar nisso, apenas tentar consumir conscientemente - sabendo a procedência da carne dá pra saber se o bicho viveu uma vida feliz, se teve uma morte digna, se os métodos de criação são "verdes", etc. Então, bicho caçado entra em todos esses quesitos positivamente, pois viveram felizes, morreram dignamente - sem imaginar o que os aguradava na virada da curva!, e são muito verdes. Só não queria saber que aquele no meu prato era um nenê órfão... Mas tudo bem, eu me acostumo.
Quanto ao visto, viva a Politi e a UDI. Não foi tão mal assim. As que reclamam deveriam é arrumar as malas e voltar pro Brasil, pois nunca serão realmente felizes aqui, pensando daquela forma.
Mama, adorei o comentário!
beijos
Camila, obrigada pela visita e pelo comentário...
Depois do post eu tenho me sentido mais leve, estou deixando meu casulo imaginário e reclamado bem menos. A adaptacao é, a meu ver, um exercício diário. E eu tava precisando mesmo de um empurraozinho pra nao me esquecer disso. Essa blogagem coletiva veio bem a calhar.
Quanto à carne de caça, eu acho que vc vai cozinhar e comer com o respeito que ela merece... (O pai do meu marido era caçador e abatia os animais que tinham menor chance de sobrevivência, pra manter o equilíbrio da floresta em que ele atuava.)
Melhoras pro seu dedao, boa sorte com o emprego e se fizer a linguica de peixe, conta se deu certo!
Oi, xará!
O alcinho está penduradinho, lá no local onde eles caçam. A caça ao alce aqui na Noruega é permitida exatamente pra prevenir a superpopulação, uma vez que eles não tem predadores naturais aqui. Na Noruega não há ursos (polares apenas, mas lá na ilha de Svalbard e no Cabo do Norte, não na parte continental). Os ursos da Suécia tem começado a migrar aos poucos pra cá, mas ainda não chega a ser um probelma. Enfim, é carne que se respeita sim. É gostosa, nutricionalmente rica, e totalmente orgânica!
Fico feliz de saber que a blogagem serviu pra espantar seus diabinhos particulares (fiz um post sobre isso, aqui se quiser dar uma olhada http://camigoestonorway.blogspot.com/2009/08/o-monstro-esta-chegando.html). Essas auto-conversas em forma de texto tem feito muito bem à mim. reclamar faz parte, acho que é até um mecanismo de auto-defesa, mas é preciso tomar cuidado pra não ficar chata. E lembrar sempre, como vc muito bem colocou, que estamos nessa situação por opção. Acho que adaptação é um processo que levará, na verdade, a vida toda. Mas se for transformado num mundo de descoberta, pode ser bem prazeroso.
Bom poder trocar idéias com esse bando de gente espalhado pelo mundo!
beijo
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