domingo, agosto 30, 2009

The Sea Sheperds, e uns outros heróis de verdade

Já fazia uns meses que eu estava pra publicar este post. Agora com a estréia da segunda temporada da série Whale Wars aqui no Animal Planet, foi a deixa que eu estava esperando. Perdão se ele ficar meio confuso às vezes, pois é uma verdadeira colcha de retalhos!

A Sea Sheperd Conservation Society, ONG baseada nos EUA e Austrália (para operações na Antártica) foi fundada em 1977, pelo canadense Paul Watson, que havia acabado de ser "expulso" do Greenpeace, do qual ele foi co-fundador junto com Bob Hunter, entre outros. Em 1971 Watson foi votado fora do grupo com 11 votos a 1, sendo o único voto contra o seu próprio. A alegação dos membros do Greenpeace foi de que Watson era adepto de métodos violentos demais. A coisa esquentou mesmo quando eles começaram a discutir táticas, e Watson era extremamente contra apenas "testemunhar e registrar a matança de baleias" sem maior intervenção.

Os Sea Sheperds tem envolvimento numa série de projetos de conservação e proteção, incluindo campanhas contra a caça irrestrita de tubarões por suas barbatanas e a matança de focas no Canadá. Mas a campanha que os fez famosos e gerou a série de tv foi a campanha pra impedir que baleeiros japoneses continuem exterminando até mil baleias (a maioria mink) nas águas da Antártica. A Antártica não é um país, é um território da humanidade, e não há governo pra legislar ali nem exército que proteja suas águas, e portanto sua fauna marinha.

Watson diz que eles não são um grupo de protesto (como o Greenpeace), mas sim de intervenção em atividades ilegais - portanto, muito mais agressivos. Ele prega que a caça de baleias em território antártico por parte dos japoneses é ilegal. Em 1986 a International Whaling Comission decretou uma moratória (suspenção) da caça comercial às baleias, e em 1994 as águas da Antártica foram declaradas santuário das baleias. Essa moratória ainda não foi cancelada.

O fato interessante - na época em que essa proibição foi decretada, Noruega, Peru, Japão e (na época) a União Soviética protestaram, já que a proibição não havia sido recomendada diretamente pelo comitê científico da IWC.

Existem exceções à proibição, entretanto - que a caça à baleias por grupos aborígenes que usam a carne para subsistência ainda fosse permitida, e a captura com fins científicos e de pesquisa também. Aí entra a suposta malandragem japonesa: eles vêm caçando baleias desde então, sempre alegando que para pesquisa e para manejo sustentável dos estoques... Existem imagens do próprio Greenpeace, de arpoadores japoneses com 5, 6 baleias mortas e esquertejadas no deck, e tripulantes japoneses segurando cartazes em inglês - para serem fotografados - "Estamos recolhendo amostras de tecido" ou "Estamos estudando conteúdo estomacal". Então seria preciso matar uma baleia inocente para estudá-la?


Clique nas fotos pra ser redirecionado à fonte, o site do Greenpeace. Veja mais fotos como essas.

Os argumentos dos japoneses são fracos, sempre contestados por todos os países que são contra a caça à baleia, e não são reconhecidos nem pela IWC. Eles dizem que a tradição de pesca de baleia remonta ao século 17, e que a proibição além de impedir o povo japonês de dar continuidade à essa tradição, é uma intromissão estrangeira. Eles citam o hábito americano de comer peru no Natal, e dizem que nunca condenaram isso, então porque os outros países condenam a eles? Já outros dados indicam que a indústria baleeira se fortificou no Japão durante a Segunda Guerra. As baleias eram uma fonte barata de proteína, aliás 80% da proteína consumida no período da Guerra, e que o hábito se fortificou ali. Enfim, é difícil julgar, um hábito cultural... E nesse caso também se enquadra a matança bárbara de baleias e golfinhos todos os anos nas Ilhas Faroe, território dinamarquês entre a Escócia e a Islândia (você já teve ter recebido um e-mail, tá circulando na net um mega-protesto. Os argumentos do protesto são válidos, a matança é brutal e desumana. Mas a cerimônia é tradição ali, e é herança dos vikings, que realizavam a caça anual dessa forma. Hoje os insulares de Faroe ainda comem a carne dos animais, ao contrário do que alegam os exagerados e-mails. Veja um vídeo documental, jornalístico e não-sensacionalista aqui. A barbárie começa aos 5 minutos mais ou menos. Infelizmente apenas em inglês). Os Sea Sheperds também atuaram lá em 1986, e desde 200o tem exercido pressão mundial pra por fim à matança.

Mas voltando ao assunto... Que os japoneses tem rabo preso, acho que é fato induscutível, bem como a Noruega e Islândia tem sua parcela de culpa nessa história. Agora, como atuam os Sea Sheperds? Pra quem já assistiu ao menos um episódio do emocionante show, sabe perfeitamente. Eles perseguem com seu navio, o Steve Irwin (aquele conservacionista australiano que tinha shows de tv onde se atracava com crocodilos, e que acabou morrendo ao receber uma ferroada de arraia no coração. O nome do navio é uma homenagem, aparentemente Steve estudava a possibilidade de juntar-se a Watson na luta pelas baleias), a frota de baleeiros japoneses pelos mares gelados da Antártica. Atacam os navios com um ácido orgânico extraído de manteiga, que fede à beça e contamina toda a carne que estiver à bordo com a pestilência, tentam tirar o arpoador da rota, enfim, eles auto-definem seus métodos como assédio. Chegaram até a colidir navios (veja neste post). Para o olho destreinado, parecem verdadeiros heróis. O vídeo abaixo, também em inglês, traz uma entrevista deles ao Larry King. Bem interessante...



Entretanto, de acordo com várias organizações também sérias - inclusive o Greenpeace - os Sea Sheperds são piratas, agem a partir do pressuposto de superioridade moral em relação a seus "inimigos". Muitos alegam que eles representam o tipo de atividade conservacionista que faz um sujeito se sentir bem, o faz se sentir um herói por gritar, espernear e até arriscar a vida pela causa que ele acredita ser justa - no caso dos voluntários - mas não tem substância. Já no mundo real, as ações dos Sea Sheperds atrasam diálogos e tornam o progresso das ações conservacionistas por grupos de protesto mais lento. Os japoneses agora se recusama ouvir falar em voltar atrás na caça ou mesmo reduzir suas cotas, pois os "piratas" Sea Sheperds tem cometidos ações criminosas contra eles. O progresso de qualquer ação conservacionista envolve trabalho árduo pra encontrar valores que e soluções práticas pra um dilema. Poucos são aqueles prejudicando os oceanos e ecossistemas que realmente desejem mal à eles. Em geral, existem razões pra que cometam tais atos (vide o caso das Ilhas Faroe), e em geral essas razões não são apenas ganância (apesar de que na MINHA humilde opinião, os japoneses sim se enquadram nesse quesito, ao contrário da Noruega e Islândia, que caçam aqui no Atlântico Norte e em geral consomem o produto da caça internamente).* Aqui na Noruega, os Sea Shepreds também não são bem vindos. Em 1992, eles afundaram o navio Nybraena na região de Lofoten. Um dos voluntários invadiu o navio, que estava aportado em Steine, e abriu válvulas na sala de máquinas, permitindo que o navio começasse a se encher de água. A tripulação estava entretida numa festa de Natal, em terra. O navio se inundou de água e se afastou do porto, eventualmente afundando. Eles afundaram outras embarcações baleeiras em outros lugares do mundo.

Como os Sea Sheperds, o Greenpeace também segue a frota japonesa pela Antártica, mas se restringem a filmar e fotografar a pesca, como evidência que sirva de base para possíveis discussões, ou mesmo pra divulgar pra imprensa. Eles não impedem a matança. Já nossos piratas ecológicos... A crítica de um grupo a outro é feroz, não há cooperação entre eles, mas a figura de Paul é sempre ligada ao Greenpeace, o que incomoda aos protestantes pacíficos desse grupo.

Seria fácil afirmar que qualquer ação é válida, mas a coisa que não é bem assim.

Agora deixo aqui um homenagem a verdadeiros heróis da natureza, pacíficos, articulados, ativistas à maneira deles. Apresento Daniel e Tietta, o casal 20 da região da Bodoquena e Bonito! Tietta recentemente escreveu um post sobre o tráfico de animais, especialmente papagaios. Se você, sentado aí lendo este bloguinho, for o orgulhoso dono de um papagaio, saiba que você é um criminoso e eu te abomino!!! Não culpe os traficantes de animais e muito menos o governo. Esse mercado existe porque gente como você, seu cretino(a), ainda está disposta a pagar dinheiro pra possuir um animal ilegal e cruelmente retirado da natureza. Por favor, leiam o post da Tietta e passem adiante.

Já o marido dela, Daniel, publicou recentemente dois posts de causar inveja a muito cidadão, "O Pantanal é o cara" e "Meu vizinho é um Parque Nacional". Leia, delicie-se, divulgue, se perca nas fotos dele... Os dois vivem na região de Bonito há vários anos (desde que trabalhamos juntos no Pantanal, entre 1998 e 1999), e tem realizado grandes trabalhos de educação ambiental. Gente de verdade, com trabalho e dedicação à natureza de verdade. Os dois vão aparecer no canal ESPN Brasil, no programa Caravana do Esporte e da Música, dia 20 de setembro às 19:30h. Canal 70/NET ou 30/SKY. Alguém aí do Brasa grave pra mim! A Tietta também tava na Globo no programa Terra da Gente.

* Nota - usei esse blog como fonte nesse parágrafo, fazendo tradução livre.

9 comentários:

Tietta Pivatto disse...

Oi Camélia!

Muito legal teu texto! Eu também não gosto das ações violentas por acreditar que violência gera mais violência e impede o diálogo, mas confesso que tem hora que dá mesmo vontade de esganar o cara que trucida uma foquinha, trucida uma floresta ou queima o tamanduá-bandeira no meio do canavial. Mas sei que isso não adianta, então vejo a solução em outra linha: educação. Quando as pessoas entenderem todos os processos envolvidos na fabricação de um produto ou alimento poderão escolher melhor o que levar a mesa (e nem estou considerando conceito de saudável). Será que matar baleias é mais ou menos impactante que criar bilhões de bois sobre florestas desmatadas? Não estou justificando nem um nem outro, mas questionando o problema específico de cada local.

Tietta Pivatto disse...

Agora sobre os papagaios, também tem muita coisa a se considerar... Ter papagaios e passarinhos engaiolados faz parte de uma cultura egoísta e tradicionalmente muito aceita no mundo todo. Todos que possuem uma ave em casa acreditam que elas tem a melhor vida do mundo, mas não conseguem perceber que a ave sofre em silêncio por não conseguir seguir um instinto básico, voar para se reproduzir, migrar, caçar, etc. Elas de alguma forma sentem isso. Fica muito evidente para quem assistiu o filme "Migração Alada / Winged Migration", na cena em que um bando de gansos passa voando em migração sobre um galinheiro, e os gansos presos lá tentam segui-los e não conseguem... Muito didática a cena!

Mas voltando aos papagaios: insisto no tema, educação. Boa parte de quem tem um papagaio na cidade nem faz ideia da história dele, e se soubessem não teriam contribuído. Já nas áreas rurais (e vimos muito disso aqui na região), é engraçado como sempre tem um papagaio filhote que "foi abandonado pela mãe ou caiu do ninho durante a chuva...". Um ou outro papagaio em casa nesse caso não é o problema, e sim os mais de 5000 filhotes que são retirados do ninho a cada ano só em MS para abastecer o tráfico nacional e internacional de fauna.

Tietta Pivatto disse...

Existe hoje no Brasil muitos criatórios que possuem licença do órgão ambiental para criar papagaios e outras aves que possam ser vendidas comercialmente para as pessoas. Estas aves devem ter sempre origem comprovada e vir com chip de identificação e anilha do IBAMA. Então, caso alguém não resista à tentação de ter um bicho desses em casa, procure seu papagaio em Criatórios sérios, de boa reputação, e adquiram APENAS animais de origem legal. Eles ainda são muito mais caros que aqueles vindo ilegalmente, mas desta forma você não estará contribuindo para essa agressão ambiental.

Tietta Pivatto disse...

E aos poucos o que esperamos é que as pessoas passem a admirar aves livres, através da observação de aves. Prestigiem nossos parques nacionais, lá encontraremos centenas de espécies maravilhosas, muitas endêmicas e ameaçadas de extinção (pelo tráfico ou pelo desmatamento) que estão protegidas. É a atitude das pessoas que vai mudar essa situação, que não é exclusiva do Brasil, mas infelizmente está acontecendo no mundo todo.

Camélia, me desculpe o texto enorme, mas eu acho importante não recriminar o comprador antes de saber se ele tem consciência das consequências de ter comprado um papagaio, ou comido carne de baleia, vestido uma pele de bicho ameaçado, feito um chazinho energizante com chifre de rinoceronte ou ainda uma estatueta de marfim de elefante. Muita gente não tem mesmo noção disso, e é a educação dessas pessoas que vai nos ajudar. Depois disso, conhecer nossas leis ambientais e fazê-las acontecer, serem aplicadas.

O mundo ainda tem solução, mas pra isso precisamos participar dele de verdade...

Beijos!!!!!

Camila Hareide disse...

Ti

O espaço foi aberto, então é pra ser usado. Assino embaixo de tudo o que falaste, um vez que eu sou enxerida, e não expert... Eu fico poota com a história dos animais silvestres porque eu sei como rola a coisa, por ter morado lá no Pantana e convivido com vocês e o pessoal dos projetos todos... Concordo que a maioria da população não tem conhecimento dos problemas gerados, e é preciso educar o povo - POR ISSO sempre divulgo os trabalhos, de vocês e de outros.

O sujeito que tem o papagaio, o que come baleia (hum,hum, cof,cof, hã,hein, cuma?), o que adora o churrascão do domingão (e come a carne responsável pelo desmatamento de parte do Pará, por exemplo) não tem mesmo idéia... Mas por causa de gente batalhadora como vocês, sim, eu sei que há esperança.

Essa era a idéia do post... Despertar curiosidade em pessoas que nem pensam nisso.

Mas que eu acho o Paul Watson e seus comparsas muito machos - e burros!, ah, isso eu acho. Sou a favor da não-violência, mas às vezes é preciso fazer algo. Ao menos visibilidade pro assunto eles estão dando. Será? (Esse será foi aquele será pantaneiro, à lá Seu Getúlio)

Um dia você vai preparar um guest post aqui pra mim, que tal?

beijo

Tietta Pivatto disse...

Claro, será um prazer!!!! Gosto muito das suas postagens e sei da sua sinceridade em lutar pelo meio ambiente. Educação é tudo!!!

Super beijo,

Tietta

Beth/Lilás disse...

Ué! Ontem comentei sobre este tópico e não apareceu meu comentário!

Eu quis dizer, sintetizando, que os japas são uns doidos de pedra mesmo, onde já se viu comer baleias e golfinhos!

E disse também que não sou a favor de violência, acho que é melhor a conversa antes, mas que dá vontade de agir pelo menos uma vezinha assim, afundando um baleeiro desses com toda a carga só pra ver os japas ou vikings desesperados.
Odeio estes tais dogmas da humanidade, só levam a loucuras!

bjs cariocas

Camila Hareide disse...

Dona Lilás, a senhora comentou sobre este post, no anterior... Está lá bonitinho, onde vc deixou!

Acho muito complicado condenar hábitos alimentares de cada povo. Se comem, deve ter alguma razáo. A questáo é como se preocupam em manter os estoques, e como sacrificam esses bichos. Ou alguém acha que a vaquinha que a gente come morre uma morte "respeitosa"?

Mas violëncia como forma de protesto, nã-não, já ensinou Ghandi ao mundo há muitos anos atrás!
beijo

Anônimo disse...

eu nunca vi esse seriado...
mas vou ver se acho no grid listing... adoro esse tipo de seriado...
te falei de true blood, neh?
oh well...
em breve...
kkkkkkkkk
beijos!