Sempre gostei de água, desde pequena...Acho que porque sou nascida em fevereiro, filha de Iemanjá. Minha idéia de paraíso (e de tantos outros) sempre foi uma praia! Nunca morei perto do mar, apenas viajei pra perto dele... Até que um dia descolei o emprego dos sonhos...Trabalhar no mar - não perto dele, NELE! - como tripulante de um navio de cruzeiro. Melhor oportunidade de viajar E estar perto do mar ao mesmo tempo, não existe!
Por quase 9 anos (8 anos e 9 meses pra ser precisa) minha casa boiou! O mar faz parte da minha história ao longo destes anos. Nunca tive medo do mar em si. Talvez do que pudesse acontecer em caso de, digamos, problemas! Mas desde cedo, ao olhar pra toda aquela água, sempre tenho a imagem mental de arrancar a roupa e sair correndo pra um mergulho...
A quantidade de "causos" acumulados nestes anos daria um livro. Mas hoje, se me perguntarem, as histórias que mais marcaram tem relação direta com o mar em si, não pessoas ou lugares. Navios que afundaram nas redondezas, tripulantes resgatados de naufrágios, pessoas que "desapareceram" no mar no meio da noite, tempestades, navegar num mar congelado, avistagens de gofinhos e baleias, pra nos lembrar de que o mar está vivinho e merece respeito...
As temporadas de furacões também me marcaram muito- especialmente a de 2005. Nosso navio chegou a navegar a 100 milhas náuticas do olho do Katrina. Mar e céu, cinza, se misturavam a ponto de não ser possível distinguir qual era qual... Os passageiros enjoadíssimos, porque o navio jogava bastante. Infelizmente pela tragédia que o Katrina causou, foi mais lembrado por ela, do que pela causa dele - e dos outros 4 furacões arrasadores naquele mesmo ano - Dennis, Emily, Rita e Wilma. Terrível chegar numa ilha meses depois de um furacão e constatar os estragos. Mais terrível ainda era assistir o terror da tripulação caribenha, temendo pela vida de suas famílias e pela integridade de suas propriedades. Pior ainda é dar-se conta de que esses furacões ocorreram de tal maneira por causa das mudanças climáticas - e do mal que fazemos ao planeta...
Depois de vários anos trabalhando a bordo, outro aspecto desta indústria passou a chamar mais minha atenção: o da poluição do mar causada pelos navios. Começou quando descobri que a primeira empresa pra a qual trabalhei tinha sido responsável por um dos maiores acidentes ambientais do Alaska. Um tripulante de alto-escalão, ao apertar o botão errado, despejou milhares de litros de óleo nas águas, causando uma mancha de 450 metros. Milhões de dólares gastos em multas, um tripulante mais Capitão e Staff Captain (o vice-capitão, digamos assim) despedidos, e a população e governo do Alaska de olho em todas as cias de navegação. Foram criadas a partir dos anos 90 novas regulamentações pra proteger a costa e os oceanos, e testes em amostras das águas por onde os navios passavam foram recomendadas. Descobriu-se que, além de óleo, estavam despejando qímicos de lavanderia, de laboratórios fotográficos e outros dejetos nas águas ! Hoje as coisas são um pouco diferentes, mas porque as companhias de cruzeiro aprenderam a lição quando os governos mexeram onde mais dói - no bolso delas. Cansaram de pagar os milhares de dólares em multas, e tomaram providências para reduzir a emissão de poluentes. Ainda assim, aqui neste site é possível ver qual cia está sendo multada ultimamente, e por qual violação... E no mundo todo! Até na Antártica tem navio jogando sacos de lixo na água!
"January 2008
Lyubov Orlova, Quark Expeditions
From a passenger: We took a trip to Antarctica for a study abroad program with the University of Delaware. Aboard the Lyubov Orlova through Quark Expeditions, we traveled with 25 students and 2 advisors on a 10 day Antarctic cruise January 6-16. While aboard, we witnessed dumping of trash, including plastic garbage bags, overboard. Luckily, we were able to catch the act on video and are extremely unhappy with current dumping regulations. Editor's note: Sadly, the Orlova has a long history of this type of behaviour though no government or authority has yet to address the problem."
As empresas de cruzeiros movimentam milhões de passageiros por cada ilha do Caribe - e agora outros lugares do planeta. Junto com os passageiros, trazem centenas de toneladas de lixo. Pela legislação, parte do lixo é separada e desembarcada para reciclagem. Mas não há garantias (por parte das cias) de que este lixo tenha um destino realmente correto. Acredito que seja uma maneira de mostrarem que elas fazem a sua parte! A água cinza (de torneiras, chuveiros, jacuzzis e piscinas) é descarregada no mar, a 12 milhas náuticas da costa - de acordo com a legislação americana. Outros destinos tem outras regras - e junto com ela sabão, produtos químicos e outros detritos. A água negra (dos vasos sanitários) deve ser tratada antes de ser jogada no mar. Mas ainda assim é descartada no oceano. Dizem que limpinha, mas... E além de tudo isso, a água dos trituradores de alimentos, juntamente com todo o resto de alimentos que ela empurra para os trituradores (são toneladas a cada cruzeiro) vira comida de peixe, pois também é jogada no mar!
E também há que se considerar a quantidade de turistas que desembarcam, vão às praias, passeios de barco ou carro pelas ilhas, e vão jogando lixo (garrafas de plásticos, sacolas plásticas, latas, emntre outras coisas) por aí afora. No verão, na temporada caribenha, em lugares com Grand Cayman, Cozumel ou St Maarten podem chegar a 20 mil pessoas por dia! E as ilhas tem que lidar com o problema. E na maioria delas, o que fazem? Ignoram! Depois, uma vez por ano, as empresas de cruzeiro organizam um programa de voluntários entre os tripulantes para ajudar alguma ilha... Natal na Jamaica ou Haiti (eu fiz os dois!), mutirões em escolas ou comunidades carentes, e por aí afora. E depois divulgam as fotinhos nos sites e jornais corporativos, e o público logo pensa "Nossa, eles realmente estão fazendo a parte deles!"
Desembarquei de vez pra lançar minha âncora aqui no norte da Noruega. - claro, de frente para o mar! Um lugar deslumbrante, que ainda guarda paraísos quase inabitados, onde poucos seres humanos colocaram seus olhos... Como a Ilha de Landegode. Fiquei muito impressionada ao ver tanto lixo num lugar como esse, uma prainha dentro de uma baía da ilha onde não há turismo de massa...
Mas é o oceano que traz o lixo... Infelizmente. Ao mesmo tempo notável perceber como as águas do mar se movimentam pelo planeta.
E aqui na Noruega até os conservacionistas estão preocupados com o impacto dos cruzeiros no Ártico, vide estudo da WWF.
Então só me resta pedir que pensem duas vezes antes de viajar de navio... Pode parecer suspeito vindo de mim. Mas existem outros destinos turísticos - perto do mar - que dão mais valor ao meio que lhes sustenta!
E participe do movimento Um Mar de Histórias, no blog da Lucia Malla e no Faça a Sua Parte, para comemorar o Dia Mundial dos Oceanos.
Por quase 9 anos (8 anos e 9 meses pra ser precisa) minha casa boiou! O mar faz parte da minha história ao longo destes anos. Nunca tive medo do mar em si. Talvez do que pudesse acontecer em caso de, digamos, problemas! Mas desde cedo, ao olhar pra toda aquela água, sempre tenho a imagem mental de arrancar a roupa e sair correndo pra um mergulho...
A quantidade de "causos" acumulados nestes anos daria um livro. Mas hoje, se me perguntarem, as histórias que mais marcaram tem relação direta com o mar em si, não pessoas ou lugares. Navios que afundaram nas redondezas, tripulantes resgatados de naufrágios, pessoas que "desapareceram" no mar no meio da noite, tempestades, navegar num mar congelado, avistagens de gofinhos e baleias, pra nos lembrar de que o mar está vivinho e merece respeito...
As temporadas de furacões também me marcaram muito- especialmente a de 2005. Nosso navio chegou a navegar a 100 milhas náuticas do olho do Katrina. Mar e céu, cinza, se misturavam a ponto de não ser possível distinguir qual era qual... Os passageiros enjoadíssimos, porque o navio jogava bastante. Infelizmente pela tragédia que o Katrina causou, foi mais lembrado por ela, do que pela causa dele - e dos outros 4 furacões arrasadores naquele mesmo ano - Dennis, Emily, Rita e Wilma. Terrível chegar numa ilha meses depois de um furacão e constatar os estragos. Mais terrível ainda era assistir o terror da tripulação caribenha, temendo pela vida de suas famílias e pela integridade de suas propriedades. Pior ainda é dar-se conta de que esses furacões ocorreram de tal maneira por causa das mudanças climáticas - e do mal que fazemos ao planeta...
Depois de vários anos trabalhando a bordo, outro aspecto desta indústria passou a chamar mais minha atenção: o da poluição do mar causada pelos navios. Começou quando descobri que a primeira empresa pra a qual trabalhei tinha sido responsável por um dos maiores acidentes ambientais do Alaska. Um tripulante de alto-escalão, ao apertar o botão errado, despejou milhares de litros de óleo nas águas, causando uma mancha de 450 metros. Milhões de dólares gastos em multas, um tripulante mais Capitão e Staff Captain (o vice-capitão, digamos assim) despedidos, e a população e governo do Alaska de olho em todas as cias de navegação. Foram criadas a partir dos anos 90 novas regulamentações pra proteger a costa e os oceanos, e testes em amostras das águas por onde os navios passavam foram recomendadas. Descobriu-se que, além de óleo, estavam despejando qímicos de lavanderia, de laboratórios fotográficos e outros dejetos nas águas ! Hoje as coisas são um pouco diferentes, mas porque as companhias de cruzeiro aprenderam a lição quando os governos mexeram onde mais dói - no bolso delas. Cansaram de pagar os milhares de dólares em multas, e tomaram providências para reduzir a emissão de poluentes. Ainda assim, aqui neste site é possível ver qual cia está sendo multada ultimamente, e por qual violação... E no mundo todo! Até na Antártica tem navio jogando sacos de lixo na água!
"January 2008
Lyubov Orlova, Quark Expeditions
From a passenger: We took a trip to Antarctica for a study abroad program with the University of Delaware. Aboard the Lyubov Orlova through Quark Expeditions, we traveled with 25 students and 2 advisors on a 10 day Antarctic cruise January 6-16. While aboard, we witnessed dumping of trash, including plastic garbage bags, overboard. Luckily, we were able to catch the act on video and are extremely unhappy with current dumping regulations. Editor's note: Sadly, the Orlova has a long history of this type of behaviour though no government or authority has yet to address the problem."
As empresas de cruzeiros movimentam milhões de passageiros por cada ilha do Caribe - e agora outros lugares do planeta. Junto com os passageiros, trazem centenas de toneladas de lixo. Pela legislação, parte do lixo é separada e desembarcada para reciclagem. Mas não há garantias (por parte das cias) de que este lixo tenha um destino realmente correto. Acredito que seja uma maneira de mostrarem que elas fazem a sua parte! A água cinza (de torneiras, chuveiros, jacuzzis e piscinas) é descarregada no mar, a 12 milhas náuticas da costa - de acordo com a legislação americana. Outros destinos tem outras regras - e junto com ela sabão, produtos químicos e outros detritos. A água negra (dos vasos sanitários) deve ser tratada antes de ser jogada no mar. Mas ainda assim é descartada no oceano. Dizem que limpinha, mas... E além de tudo isso, a água dos trituradores de alimentos, juntamente com todo o resto de alimentos que ela empurra para os trituradores (são toneladas a cada cruzeiro) vira comida de peixe, pois também é jogada no mar!
E também há que se considerar a quantidade de turistas que desembarcam, vão às praias, passeios de barco ou carro pelas ilhas, e vão jogando lixo (garrafas de plásticos, sacolas plásticas, latas, emntre outras coisas) por aí afora. No verão, na temporada caribenha, em lugares com Grand Cayman, Cozumel ou St Maarten podem chegar a 20 mil pessoas por dia! E as ilhas tem que lidar com o problema. E na maioria delas, o que fazem? Ignoram! Depois, uma vez por ano, as empresas de cruzeiro organizam um programa de voluntários entre os tripulantes para ajudar alguma ilha... Natal na Jamaica ou Haiti (eu fiz os dois!), mutirões em escolas ou comunidades carentes, e por aí afora. E depois divulgam as fotinhos nos sites e jornais corporativos, e o público logo pensa "Nossa, eles realmente estão fazendo a parte deles!"
Desembarquei de vez pra lançar minha âncora aqui no norte da Noruega. - claro, de frente para o mar! Um lugar deslumbrante, que ainda guarda paraísos quase inabitados, onde poucos seres humanos colocaram seus olhos... Como a Ilha de Landegode. Fiquei muito impressionada ao ver tanto lixo num lugar como esse, uma prainha dentro de uma baía da ilha onde não há turismo de massa...
Mas é o oceano que traz o lixo... Infelizmente. Ao mesmo tempo notável perceber como as águas do mar se movimentam pelo planeta.E aqui na Noruega até os conservacionistas estão preocupados com o impacto dos cruzeiros no Ártico, vide estudo da WWF.
Então só me resta pedir que pensem duas vezes antes de viajar de navio... Pode parecer suspeito vindo de mim. Mas existem outros destinos turísticos - perto do mar - que dão mais valor ao meio que lhes sustenta!
E participe do movimento Um Mar de Histórias, no blog da Lucia Malla e no Faça a Sua Parte, para comemorar o Dia Mundial dos Oceanos.





9 comentários:
Oi Camila, muito legal seu post. Eu não tinha nocão desse estrago que os cruzeiros andam causando pelos mares a fora. Achei que fossem mais cuidadosos e fiscalizados, mas até essa parte de controlar os passageiros acredito ser bem dificil, e a galera sem nocäo e educacão, mandam mesmo lixo pro mar. Uma pena.
Depois a natureza se revolta e manda de volta os males que o homem provoca.
Beijo
Camila, seu post é muito interessante. Obrigada pela participação, de coração. :)
Beijos.
Oi Camila, muito interessante o seu post. Nao pensei que esses turismos em navios fosse assim...bem nunca fiz um e apesar de amar o mar nao sei se ia gostar de ficar dentro de um navio fazendo férias, rs, tenho a impressao que iria ficar enjoada.
O homem suja a própria casa, depois vai ficar difícil de limpar...
Um abraco e uma linda semana prá você.
Nossa Camila, nunca tinha pensado nisso. Na quantidade de lixo produzida num cruzeiro...
Adorei o post, Alline.
Camila, o turismo é infelizmente uma atividade poluidora, tanto no mar como na terra. Mas acho que as novas gerações que aprendem na escola os danos que causamos com este comportamento, serão mais respeitosas em relação ao meio ambiente. Enquanto isto não acontece, é como você disse, o jeito é dar multas elevadas, pois o bolso é o ponto sensível para todas estas companhias.
E parabéns pelo post, é muito enriquecedor ter o depoimento de alguém que viveu no mar durante anos e que conhece de dentro o ambiente dos cruzeiros.
E também que mora no Ártico, um dos lugares mais afetados pelo aquecimento climático.
Um grande abraço.
Excelente post, Camila. Mas é assutador. Outro dia vi parte do filme Home, de Yann Arthus-Bertrand. na TV francesa e há dados que são impressionantes. Fica difícil ter esperança no Homem...
Bjs
PS: Isso dá uma matéria e tanto!!!
Aqui em casa todo mundo gosta do mar.
Camila,
fiz um cruzeiro no Ano Novo, com a família. Fomos do Rio a Maceió. Desde o começo, achei pouco sustentável: tanto lixo produzido, tanto desperdício.
Mas o que me deixou pior foi a virada de ano, passada em pleno mar: um monte de bexigas (bolas? balões?) de hélio soltas no ar. Em mar que é rota de tartarugas marinhas, fiquei triste na hora, só de pensar no estrago.
Eles sujam o próprio mar que sustenta a sua indústria, como disseram aí em cima. Típica atitude extrativista, que vai levar ao esgotamento. Tenho pra mim que nunca mais piso num navio desses, mas quem vai expor esse problema ao grande público?
Nossa, eu sabia da poluição gerada pelos cruzeiros, mas nunca tinha percebido que era tanta, realmente vendo a pág. de infrações percebemos a quantidade de alterações que os navios geram só de passar pelo local... Super interessante o seu blog, realmente abre os olhos, principalmente vindo de alguém que estava do "outro lado" e vê tudo com grande clareza... Muito legal, parabéns!
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